A AVENTURA DE MIGUEL LITTIN, CLANDESTINO NO CHILE
GABRIEL GARCA MRQUEZ

GARC MRQUEZ, Gabriel.  A aventura de Miguel Littin,
  clandestino no Chile. Rio de Janeiro: Record, 1986.

OBRAS DO AUTOR

O AMOR NOS TEMPOS DO CLERA
CEM ANOS DE SOLIDO
CRNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA
        O ENTERRO DO DIABO
OS FUNERAIS DA MAMAE GRANDE
A INCRVEL E TRISTE HISTRIA DE CANDIDA ERNDIRA
        E SUA Av DESALMADA
NINGUM ESCREVE AO CORONEL
OLHOS DE CO AZUL
        O OUTONO DO PATRIARCA
        RELATO DE UM NUFRAGO
        TEXTOS DO CARIBE (Vol. 1)
        TEXTOS DO CARIBE (Vol. 2)
A M HORA (O VENENO DA MADRUGADA)
A AVENTURA
DE MIGUEL LITTN
CLANDESTINO NO CHILE

uma reportagem de
GABRIEL GARCA MRQUEZ





traduo de
Eric Nepomuceno


EDITORR RECORD
Titulo original espanhol
LA AVENTURA DE MIGUEL LITTIN
Clandestino en Chile

Copyright - by 1986 Gabriel Garcia Mrquez

Direitos exclusivos de publicao em lngua portuguesa para o Brasil
adquiridos pela
DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIOS DE IMPRENSA S.A.
Rua Argentina 171 - 20921 Rio de Janeiro, RJ - Tel.: 580-3668
que se reserva a propriedade literria desta traduo
Impresso no Brasil

* * *

Prefcio

        No comeo de 1985, o diretor de cinema Miguel Littn _ um
chileno que figura numa lista de cinco mil exilados absolutamente proi-
bidos de retornar  sua terra _ esteve no Chile por artes clandestinas
durante seis semanas e filmou mais de sete mil metros de pelcula sobre
a realidade de seu pas depois de doze anos de ditadura militar. Com
a cara mudada, com um estilo diferente de se vestir e de falar,
com documentos falsos e com a ajuda e a proteo das organizaes
democrticas que atuam na clandestinidade, Littn dirigiu de ponta a
ponta do territrio nacional _ inclusive dentro do Palcio de La Moneda
_        trs equipes europias de cinema, que tinham entrado ao mesmo
tempo que ele com diversas coberturas legais, e outras seis equipes
juvenis da resistncia interna. O resultado foi um filme de quatro
horas para a televiso e outro de duas para cinema, que comeam a ser
projetados pelo mundo afora.
        Quando Miguel Littn me contou em Madri o que tinha feito, e
como tinha feito, pensei que atrs de seu filme havia outro filme sem
ter sido feito e que corria o risco de ficar indito. Foi assim que ele
aceitou submeter-se a um interrogatrio exaustivo de quase uma sema-
na, cuja verso gravada durava dezoito horas. Ali, ficou completa a
aventura humana, com todas as suas implicaes profissionais e polticas,
que tornei a contar condensada nestes dez captulos.
        Alguns nomes foram mudados e muitas circunstncias alteradas
para proteger os protagonistas que continuam vivendo dentro do Chile.
Preferi conservar a narrativa na primeira pessoa, do jeito que Littn
me contou, tratando de preservar dessa forma seu tom pessoal - e as
vezes confidencial -, sem dramatismos fceis nem pretenses histri-
cas. O estilo do texto final  meu,  claro, pois a voz de um escritor
n~o  intercambivel, e menos ainda quando ele teve de comprimir
quase seiscentas pginas em menos de cento e cinqenta. Em todo


5
caso, procurei na medida do possvel conservar os modismos chilenos
da narrao original, e respeitar sempre o pensamento do narrador, que
nem sempre coincide com o meu.
        Pelo mtodo da investigao e pelo carter do material, esta  uma
reportagem. Mas  mais:  a reconstruo emocional de uma aventura
cuja finalidade ltima era sem dvida muito mais profunda e comove-
dora que o propsito original e bem sucedido de fazer um filme dri-
blando os riscos do poder militar. O prprio Littn disse: "Este no 
o ato mais herico da minha vida,  o mais digno". Assim , e creio
que esta  a sua grandeza.

Gabriel Garca Mrquez

























6















* * *


_1_
A AVENTURA DE MIGUEL LITTIN
CLANDESTINO NO CHILE



        O        vo 115 da Ladeco, procedente de Assuno do Paraguai,
estava a ponto de aterrissar com mais de uma hora de
atraso no aeroporto de Santiago do Chile.  esquerda, a quase
sete mil metros de altura, o Aconcgua parecia um promontrio de ao
sob o fulgor da lua. O avio se inclinou sobre a asa
esquerda com uma graa pavorosa, endireitou-se em seguida
com um rangido de metais lgubres, e tocou a terra antes do
tempo com trs saltos de canguru. Eu, Miguel Littn, filho de
Hernn e Cristina, diretor de cinema e um dos cinco mil chilenos
absolutamente proibidos de regressar, estava de novo em
meu pas depois de doze anos de exlio, embora ainda exilado
dentro de mim mesmo: levava uma identidade falsa, um passaporte falso e
at uma esposa falsa. Minha cara e minha aparncia estavam
to modificadas pela roupa e pela maquiagem, que
nem minha prpria me haveria de me reconhecer em plena
luz, alguns dias mais tarde.
        Pouqussimas pessoas no mundo conheciam este segredo,
e uma delas ia sentada no mesmo avio. Era Elena, uma militante
da resistncia chilena, jovem e muito atraente, designada
pela sua organizao para manter as comunicaes com a rede
clandestina interna, determinar os lugares apropriados para os
encontros, avaliar a operao, marcar os encontros, velar pela
nossa segurana. Caso eu fosse descoberto pela polcia ou desaparecesse,
ou no fizesse durante mais de vinte e quatro horas
os contatos estabelecidos antes, ela deveria tornar pblica minha
presena no Chile para que fosse dado o alarma internacional. Embora
nossos documentos de identidade no estivessem
vinculados, tnhamos viajado de Madri, atravs de sete aeroportos de
meio mundo, como se fssemos um casal qualquer. Mas
neste ltimo trajeto de uma hora e meia de vo tnhamos decidido
sentar-nos separados e desembarcar como se no nos conhecssemos. Ela
passaria pela alfndega depois de mim, para
avisar seu pessoal no caso de eu ter algum tropeo. Se tudo
desse certo, tornaramos a ser um casal normal na sada do
aeroporto.
        Nosso propsito era muito simples no papel, mas na prtica
significava um grande risco: tratava-se de filmar um
documentrio clandestino sobre a realidade no Chile depois
de doze anos de ditadura militar. A idia era um sonho que
dava voltas em minha cabea h muito tempo, porque a imagem do pas
tinha-se perdido para mim nos nevoeiros da nostalgia, e para um homem de
cinema no h modo mais certeiro
de recuperar a ptria perdida que voltar a film-la por dentro.
Este sonho fz-se mais sufocante quando o governo chileno
comeou a publicar listas de exilados aos quais seria permitido
o retorno, e no encontrei meu nome em nenhuma. Mais tarde,
atingiu extremos de desespero quando foi publicada a lista dos
cinco mil que no poderiam regressar, e eu era um deles. Quando
finalmente concretizou-se o projeto, quase que por acaso e
quando eu menos esperava, j fazia dois anos que eu tinha
perdido a iluso de realiz-lo.
        Foi no outono de 1984, na cidade basca de San Sebastin.
Eu tinha me instalado ali seis meses antes com Ely e nossos
trs filhos, para fazer um filme que, como tantos outros da
histria secreta do cinema, tinha sido cancelado pelos produtores quando
faltava uma semana para comear as filmagens.
Fiquei sem sada. Mas num jantar com amigos num restaurante popular,
durante o festival de cinema, voltei a falar de meu
velho sonho. Foi ouvido e comentado na mesa com interesse
concreto, no s por seu alcance poltico evidente, mas tambm
como uma gozao  prepotncia de Pinochet. S que a ningum ocorreu
que fosse alguma outra coisa alm de pura fantasia do exlio. Mesmo
assim, j de madrugada, quando regressvamos para casa pelas ruas
adormecidas da cidade velha,
o produtor italiano Luciano Balducci, que quase no falara na
mesa, tomou-me pelo brao e me afastou do grupo de um modo
que parecia casual.
        -        O homem que voc precisa - disse - est esperando
por voc em Paris.
        Era exato. O homem que eu precisava tinha um alto cargo
na resistncia interna do Chile, e seu projeto s se diferenciava
do meu em alguns detalhes formais. Uma nica conversa de
quatro horas com ele, no ambiente mundano do La Coupole
e com a participao entusiasmada de Luciano Balducci, foi
suficiente para converter em realidade uma fantasia incubada
por mim, at em seus mnimos detalhes, nas primeiras insnias
quimricas do exlio.
        O        primeiro passo era introduzir no Chile trs equipes
bsicas de filmagem: uma italiana, uma francesa e uma de qualquer
nacionalidade europia com credenciais holandesas - Todas
legais, com autorizaes legtimas e com a proteo regulamentar de suas
embaixadas. A equipe italiana, dirigida de preferncia por uma
jornalista, teria como cobertura a filmagem de um
documentrio sobre a imigrao italiana no Chile, com nfase
especial na obra de Joaquino Toesca, o arquiteto que construiu
o Palcio de La Moneda. A equipe francesa deveria obter credenciais para
fazer um documentrio ecolgico sobre a geografia chilena.
A terceira equipe ia fazer um estudo sobre os
ltimos terremotos. Nenhuma das equipes deveria saber da
existncia das outras duas. Nenhum de seus integrantes teria
conhecimento do que realmente estava sendo feito, nem saberia
quem os -staria dirigindo nas sombras, a no ser o responsvel
de cada equipe, que deveria ser um profissional conhecido em
seu meio, com formao poltica, e consciente de seus riscos.
Foi a parte mais fcil, que eu r'~so1vi com uma breve viagem
aos pases de origem de cada equipe. As trs, credenciadas formalmente
e com seus contratos em ordem, estavam j no Chile
esperando instrues, na noite da minha chegada.


O drama de se transformar em outro

        Na realidade, o processo mais difcil para mim foi o de
me transformar em outra pessoa. A mudana de personalidade
 uma luta cotidiana, na qual a gente se rebela constantemente
contra nossa prpria determinao de mudar, e quer continuar
sendo o mesmo. Assim, a dificuldade maior no foi a aprendizagem,
como poderia parecer, e sim minha resistncia inconsciente tanto s
mudanas fsicas quanto s mudanas de comportamento. Tinha que me
resignar a deixar de ser o homem
que tinha sido sempre, e transformar-me em outro muito diferente,
insuspeito at para a polcia repressiva que tinha me
forado a abandonar meu pas, e irreconhecvel at mesmo
para os meus amigos. Dois psiclogos e um maquiador de
cinema, sob a direo de um especialista em operaes especiais
clandestinas, destacado l do Chile, conseguiram o milagre em
pouco menos de trs semanas, lutando sem descanso contra
minha determinao instintiva de continuar sendo quem eu era.
        A primeira coisa foi a barba. No era s a simples questo
de fazer a barba, e sim de sair da personalidade que ela tinha
criado em mim. Tinha deixado a barba crescer quando era
muito jovem, ao fazer meu primeiro filme, e depois tinha tirado
a barba muitas vezes, mas nunca tinha filmado sem ela. Era
como se a barba fosse inseparvel de minha identidade de diretor. Tambm
meus tios tinham usado barba, o que contribua,
sem dvida, para aumentar meu afeto por ela. Tinha tirado a
barba alguns anos antes, no Mxico, e no consegui impor
minha nova cara a meus amigos nem  minha famlia, nem a
mim mesmo. Todos tinham a impresso de estar com um intruso, mas eu
insistia em no deix-la crescer outra vez, porque
achava que ficava mais jovem. iFoi Catalina, minha filha menor,
quem resolveu minhas dvidas.
        - Sem barba voc fica mais jovem - me disse -. mas
tambm mais feio.
        Portanto, tornar a tirar a barba para entrar no Chile no
era apenas uma questo de creme de barbear e gilete, e sim um

lo
        processo muito mais profundo de despersonalizao. Foram
e cortando-a pouco a pouco, observando as mudanas em cada
etapa, avaliando os efeitos que tinham em minha aparncia e
e em meu carter os diferentes cortes, at que chegamos ao nvel
e da pele - Passaram-se vrios dias at que eu tivesse coragem
.r para enfrentar um espelho.
        Depois foi o cabelo. O meu  de um negro intenso, herdado de uma
me grega e de um pai palestino, do qual me vinha
tambm a ameaa de uma calvcie prematura. A primeira coisa
que fizeram foi tingi-lo de castanho-claro. Depois ensaiaram
diversas formas de penteado, e decidiram no contrariar a natureza. Em
vez de dissimular a calvcie, como se pensou no princpio, o que fizeram
foi acentu-la, no apenas com um penteado
liso para trs, mas tambm terminando com pinas os estragos
da depilao que os anos j tinham comeado.
       Parece mentira,mas h toques quase imperceptveis que
podem mudar a estrutura da cara. A minha, que  de lua cheia
mesmo com menos quilos dos que eu ento carregava, ficou
mais alongada com a depilao profunda dos extremos das sobrancelhas.
O curioso  que isso me deu um semblante mais
oriental do que o que eu tenho de nascimento, mas que correspondia mais
s minhas origens. O ltimo passo foi o uso de
culos de grau, que nos primeiros dias me provocaram uma
intensa dor de cabea, mas que mudaram em mim no apenas
a forma dos olhos mas tambm a expresso do olhar.
A alterao do corpo foi mais fcil, mas exigiu de mim
maior esforo mental. A mudana de cara era em essncia um
a        assunto de maquiagem, mas a do corpo requeria um treinamento
psicolgico especfico e um maior grau de concentrao.
e Porque era ali que tinha que assumir a fundo a minha mudana de
classe. Em vez das calas jeans que usava quase sempre,
e de meus bluses de caador, tinha que usar e me acostumar
a usar roupas de tecido ingls de grandes marcas europias, sapatos de
camura, gravatas italianas de flores pintadas. Em vez
de meu sotaque de chileno rural, rpido e atormentado, tinha
que aprender uma cadncia de uruguaio rico, que era a nacionalidade
mais conveniente para minha nova identidade. Tinha
que aprender a rir de um modo menos caracterstico que o
meu, tinha que aprender a caminhar devagar, a usar as mos
para ser mais convincente no dilogo. Enfim, tinha que deixar
de ser um diretor de cinema, pobre e inconformado como tinha
sido sempre, para transformar-me no que menos gostaria de
ser neste mundo: um burgus satisfeito. Ou como dizemos no
Chile: um momio.


Se voc der risada, morre

        Ao mesmo tempo em que me transformava em outro, fui
aprendendo a viver com Elena numa manso do 16.0 Distrito
de Paris, submetido pela primeira vez a uma ordem estabelecida de
antemo por algum que no era eu, e a uma dieta de
mendigo para perder dez quilos dos oitenta e sete que pesava.
No era minha casa, nem se parecia de jeito nenhum com a
minha, mas devia ser minha casa na memria, pois tratava-se
de cultivar lembranas para evitar contradies futuras. Foi
uma das mais estranhas experincias da minha vida, pois rapidamente
percebi que Elena era simptica e seria tambm na
vida privada, mas jamais poderamos ter vivido juntos. Ela
tinha sido escolhida pelos especialistas por sua qualificao
profissional e poltica, e devia me obrigar a andar na linha, sem
nenhuma margem para a inspirao. Meu carter de criador
livre resistia a admitir isso. Mais tarde, quando tudo desse
certo, perceberia que no tinha sido justo com ela, talvez porque de
algum modo inconsciente a identificava com o mundo
de meu outro eu, no qual eu resistia a me instalar, mesmo sabendo que
era uma questo de vida ou morte. Agora, evocando aquela estranha
experincia, me pergunto se afinal das
contas no ramos um casal perfeito: mal e mal nos suportvamos
debaixo do mesmo teto.
        Elena no tinha problemas de identidade.  chilena, embora no
tenha vivido no Chile de modo permanente h mais
de quinze anos, e nunca foi exilada nem procurada por nenhuma polcia
do mundo, portanto sua cobertura era perfeita. Tinha cumprido muitas
misses polticas importantes em diversos
pases, e achou fascinante a idia de fazer um filme clandestino
dentro de seu pas. Problema difcil era o meu, pois a nacionalidade
que pareceu ser a mais conveniente por motivos tcnicos me obrigava a
aprender a ter um jeito muito diferente
do meu, e a inventar para mim mesmo um passado inteiro num
pas que no conhecia. Em todo caso, antes da data prevista
tinha aprendido a virar a cabea imediatamente se algum me
chamasse pelo meu nome falso, e era capaz de responder s perguntas mais
estranhas sobre a cidade de Montevidu, sobre as
linhas de nibus que deveria tomar para voltar para casa, e at
sobre a vida de meus colegas, vinte e cinco anos antes, no Liceu
nmero 11 da Avenida Itlia, a dois quarteires de uma farmacia e a
um quarteiro de um supermercado novo. A nica
coisa que devia evitar era rir, pois meu riso  to caracterstico que
teria me delatado apesar de meu disfarce. Tanto que
o responsvel por minha mudana me advertiu com todo o dramatismo de
que foi capaz: "Se voc der uma risada, morre".
Porm, uma cara de tijolo, incapaz de um sorriso, no seria
nada estranha num tubaro internacional dos grandes negcios.

        Naqueles dias surgiu uma dvida imprevista em relao
 oportunidade do projeto, por causa da decretao de um novo
estado de stio no Chile. A ditadura _ ferida pelo fracasso
espetacular da aventura econmica da Escola de Chicago _
reagia dessa forma  ao unnime da oposio, unida pela primeira vez
em uma frente comum. Em maio de 1983 tinham
comeado os primeiros protestos de rua, que se repetiram ao
longo de todo o ano com uma aguerrida participao juvenil,
principalmente feminina, mas tambm com uma represso sangrenta. As
foras de oposio, legais e ilegais, s quais se somavam pela primeira
vez os setores mais progressistas da burguesia,
convocaram uma greve nacional de um dia. Foi uma
demonstrao de poder e determinao social que exasperou a
ditadura e precipitou o estado de stio. Pinochet, desesperado,
lanou um grito que ressoou no mundo com acordes de pera:
        -        Se isto continuar assim, teremos de fazer um novo
onze de setembro.
         verdade que essas condies pareciam favorveis a um
filme como o nosso, que pretendia levar  superfcie at os elementos
menos visveis da realidade chilena, mas ao mesmo
tempo seriam muito mais rigorosos os controles policiais e mais
brutal a represso, e o tempo til estaria reduzido pelo toque
de recolher. Acontece que a resistncia interna avaliou todos os
aspectos da situao, e foi partidria de continuar, como eu
queria. Portanto, inflamos as velas com bom mar e ventos propcios na
data prevista.


Um longo rabo de burro para Pinochet

        A primeira prova dura foi no dia da partida no aeroporto
de Madri. Fazia mais de um ms que eu no via Ely e as crianas:
Pochi, Miguelito e Catalina. Sequer tinha notcias diretas
deles, e a idia que predominava entre os responsveis pela
minha segurana era que eu deveria viajar sem avis-los para
evitar os estragos da despedida. Mais ainda: no comeo do projeto,
tinha-se pensado que para maior tranqilidade de todos
era melhor que minha famlia ignorasse a verdade, mas logo
percebemos que isso no tinha sentido. Pelo contrrio, ningum podia
ser mais til do que Ely para cobrir a retaguarda.
Movendo-se entre Madri e Paris, entre Paris e Roma, e mesmo
at Buenos Aires, era a pessoa melhor preparada para controlar
o recebimento e a revelao dos filmes que eu lhe enviasse pouco a
pouco do Chile e inclusive para conseguir fundos complementares, se
fosse o caso. E foi.
        Por outro lado, minha filha Catalina tinha notado desde
os preparativos iniciais que em meu quarto estava se acumulando um tipo
de roupa nova completamente contrria ao meu
jeito de me vestir, e at mesmo ao meu modo de ser, e foi tamanho
seu desconcerto e tanta sua curiosidade, que no tive
outro remdio a no ser reuni-los e explicar meus planos. Encararam
tudo com um sentimento de gozo e cumplicidade, como
se de repente estivessem vivendo dentro de um desses filmes
que costumvamos inventar em famlia para divertir-nos. S
que quando me viram no aeroporto transformado num uruguaio meio
clerical que tinha muito pouco a ver comigo, tanto
eles como eu tomamos conscincia de que aquele filme era um
drama da vida real, to importante quanto perigoso, que estava ocorrendo
com todos ns. Mas a reao foi unnime.
        -        O importante - me disseram -  que voc grude
em Pinochet um rabo de burro, bem comprido.
        Referiam-se  conhecida brincadeira infantil, na qual uma
criana com os olhos vendados tem de pregar o rabo no lugar
exato, em um burro de cartolina.
        -        Prometido - disse a eles, calculando o tamanho do
filme que pretendia rodar - vai ser um rabo de sete mil
metros.
        Uma semana mais tarde, Elena e eu aterrissvamos em
Santiago do Chile. A viagem, tambm por razes tcnicas, tinha
sido uma peregrinao sem itinerrio previsto por sete cidades
da Europa, para que eu fosse me acostumando a usar minha
nova identidade, apoiada em um passaporte acima de qualquer
suspeita. Era, na verdade, um autntico passaporte uruguaio,
com o nome e todos os dados de seu titular legtimo, e tinha
sido dado para ns como uma contribuio poltica, sabendo
que ia ser manipulado e utilizado para entrar no Chile. A nica coisa
que fizemos foi trocar a foto pela minha, tirada depois
da minha transformao. Minhas coisas foram organizadas de
acordo com o nome do titular: o monograma bordado nas minhas camisas,
as iniciais em minha maleta de negcios, meus
cartes de visita, meu papel de correspondncia. Depois de
muitas horas de prtica, tinha aprendido a desenhar a assinatura sem
vacilao. A nica coisa que no foi possvel resolver,
por falta de tempo, foram os cartes de crdito, e esta foi uma
falha perigosa, pois no era compreensvel que o homem que
eu fingia ser tivesse comprado no trajeto vrias passagens areas
pagando em dinheiro vivo, e em dlares.
        Apesar de tantas incompatibilidades que na vida real teriam
nos obrigado ao divrcio em dois dias, Elena e eu tnha-
mos aprendido a comportar-nos como um casal capaz de sobre-
viver aos piores desastres domsticos. Cada um conhecia a vida
falsa do outro, seu passado falso, seus falsos gostos burgueses,
e no creio que tivssemos cometido um erro grave num interrogatrio
a srio. Nossa histria era perfeita. Dirigamos uma
empresa de publicidade com sede em Paris, e amos com uma
equipe de cinema para fazer o filme de promoo de um perfume
novo que deveria ser lanado no prximo outono europeu.
Tnhamos escolhido o Chile porque era um dos poucos
pases onde podamos encontrar em qualquer poca do ano as
paisagens e os ambientes das quatro estaes, de praias ardentes
a neves perptuas. Elena se desenvolvia com uma naturalidade
invejvel dentro de seus carssimos vestidos europeus, como
se no fosse a mesma que tinham me apresentado em Paris
com o cabelo solto, saia escocesa e mocassins de colegial. Eu
tambm me achava muito cmodo dentro de minha nova carcaa de
empresrio, at que me vi refletido numa vitrine do
aeroporto de Madri, de terno escuro, colarinho e gravata, e um
ar de tubaro industrial que me revolveu as entranhas. "Que
horror!", pensei. "Se eu no fosse eu, seria igual a esse". Naquele
momento, a nica coisa que me restava de minha antiga
identidade era um exemplar meio capenga de Los Pasos Perdidos, o grande
romance de Alejo Carpentier, que levava em minha maleta como em
todas as minhas viagens dos ltimos quinze anos, para anular meu medo
incontrolvel de voar. Apesar
de tudo, tive que padecer vrios guichs de alfndega em diferentes
aeroportos do mundo, at aprender a digerir o nervosismo do passaporte
alheio.
        O        primeiro guich foi em Genebra, e tudo aconteceu com
ima normalidade absoluta, mas sei que no o esquecerei pelo
resto da minha vida, porque o funcionrio revistou o passaporte com
muita ateno, quase que pgina por pgina, e no fim
olhou minha cara para compar-la com a da foto. Olhei-o nos
olhos, sem respirar, apesar de a foto ser a nica coisa minha
naquele passaporte. Foi um duro e santo remdio: a partir daquele
momento no tornei a sentir aquela sensao de nausea
e aquela desordem do corao, at que a porta do avio se
abriu no aeroporto de Santiago do Chile, no meio de um silncio de
morte, e tornei a sentir depois de doze anos o ar glacial
das cristas andinas. Na fachada do edifcio havia um enorme
letreiro azul: Chile avanza en orclen y paz. Olhei o relgio: faltava
menos de uma hora para o toque de recolher.


17


* *


-2-
PRIMEIRA DESILUSO:
O ESPLENDOR DA CIDADE


        Quando o funcionrio da alfndega abriu meu passaporte,
tive o pressgio ntido de que se batesse os olhos nos meus ia
perceber o truque. Havia trs guichs, todos com homens sem
uniforme, e eu tinha me decidido pelo mais jovem, que me
pareceu o mais rpido. Elena meteu-se numa fila diferente,
como se no nos conhecssemos, porque se um dos dois tivesse
problemas o outro sairia do aeroporto para dar o alarma. No
foi necessrio, pois era evidente que os funcionrios da alfndega
tinham tanta pressa quanto os passageiros para que no
fossem surpreendidos pelo toque de recolher, e mal e mal olhavam os
documentos. O que me atendia no parou nem para
examinar os vistos, pois sabia que os uruguaios no precisavam
de visto. Carimbou a entrada na primeira folha limpa que encontrou, e
no momento de me devolver o passaporte olhou-me
fixo nos olhos com uma ateno que me gelou por dentro.
-        Obrigado - disse com voz firme.
        Ele me respondeu com um sorriso luminoso:
-        Seja bem-vindo.
        As malas estavam saindo com uma rapidez que teria parecido
inslita em qualquer outro aeroporto do mundo, porque
todos os funcionrios queriam chegar em casa antes do toque
de recolher. Peguei a minha. Depois peguei a de Elena _ pois
tnhamos combinado que eu sairia primeiro com a bagagem para
ganhar tempo _ e levei as duas at o balco de controle da
alfndega. O fiscal estava to apressado como os passageiros
por causa do toque de recolher, e em vez de revistar as malas
pedia aos passageiros que sassem depressa. Comecei a pr as
minhas no balco, quando ele me perguntou:
-        Viaja sozinho?
        Disse que sim. Ele deu uma olhada rpida nas malas, e
ordenou com voz urgente: "J, vai indo, vai". Mas uma supervisora
que eu no tinha visto at aquele momento _ uma crbera clssica, de
uniforme, loura e varonil _ gritou l do fundo: "Examina esse a".
S naquele momento percebi: no poderia explicar porque levava uma
bagagem com roupas de mulher. Alm do mais, no podia conceber que a
supervisora tivesse prestado ateno em mim, entre tantos passageiros
apressados, se no fosse por alguma razo diferente e mais
grave do que minhas malas. Enquanto o homem vasculhava a
minha roupa, ela pediu meu passaporte e examinou-o com ateno. Eu
me lembrei da bala que tinham me dado no avio antes
da decolagem, e enfiei-a na boca, porque sabia que iam me fazer
perguntas e eu no estava muito confiante de esconder minha
verdadeira identidade chilena atrs do meu mau sotaque uruguaio.
A primeira veio do homem:
-        Vai ficar muitos dias aqui, cavalheiro?
-        O suficiente - respondi.
        Nem eu mesmo me entendi, com o estorvo da bala na
boca , mas ele no se importou e me pediu para abrir a outra
mala. Estava fechada a chave. Sem saber o que fazer, procurei
Elena com olhos angustiados e encontrei-a impassvel na fila,
sem perceber o drama que acontecia to perto dela. Pela primeira vez
tomei conscincia da falta que ela me fazia, no s
naquele momento, mas no conjunto de nossa aventura. Ia revelar que era
ela a dona da mala, sem nem pensar nas conseqncias de minha deciso
aturdida, quando a supervisora devolveu meu passaporte e mandou o
homem revistar a bagagem do prximo. Ento tornei a olhar Elena, e no
a encontrei.
        Foi uma situao mgica que ainda no conseguimos explicar
um ao outro: Elena tinha ficado invisvel. Mais tarde ela
disse que, da fila, tambm tinha me visto arrastando sua mala,
e tinha pensado que era uma imprudncia, mas, quando me viu
sair da alfndega, ficou tranqila. Eu atravessei o salo quase
deserto seguindo o carregador que recebeu minha bagagem na
sada, e ali sofri o primeiro impacto do regresso. No notava
em nenhuma parte a militarizao que esperava, nem o menor
trao de misria.  verdade que no estvamos no enorme e
sombrio aeroporto de Los Cerrillos, onde onze anos antes tinha
comeado meu exlio numa chuvosa noite de outubro com um
terrvel sentimento de debandada, e sim no moderno aeroporto
de Pudahuel, onde tinha estado rapidamente uma nica vez
antes do golpe militar. Mas, de qualquer maneira, no se tratava de
uma impresso subjetiva. No encontrava em nenhuma
parte o aparato armado que eu tinha imaginado, sobretudo naquela
poca, com o estado de stio. Tudo no aeroporto era limpo
e luminoso, com anncios em cores alegres e lojas grandes e
bem sortidas de artigos importados, e no havia  vista nem
um guarda para a caridade de dar uma informao a um viajante
extraviado. Os txis que esperavam l fora no eram os
decrpitos de antes, e sim modelos japoneses recentes, todos
iguais e ordenados.
        Mas o momento no era de reflexes prematuras ,porque
Elena no aparecia, e as malas j estavam no txi e o relgio
avanava com uma velocidade vertiginosa na direo do toque
de recolher. A tive outra dvida. De acordo com as nossas
normas, se um dos dois se desencontrasse, o outro tocaria adiante e
avisaria, atravs dos telefones que tnhamos para qualquer
emergncia. Mas era muito difcil tomar a deciso de ir embora
sozinho, e ainda mais quando no tnhamos combinado direito
em que hotel ficaramos. No formulrio de desembarque no
pas eu tinha posto o El Conquistador) por ser um hotel aonde
vo os homens de negcio, e era portanto o que mais correspondia 
nossa falsa imagem. Alm disso, eu sabia que a equipe
italiana estava l, mas pensei que Elena no soubesse.
        Estava a ponto de renunciar  espera, tremendo de ansiedade
e de frio, quando vi Elena correndo para mim, perseguida
de perto por um homem vestido  paisana que agitava uma
capa escura. Fiquei petrificado, preparando-me para o pior,
quando finalmente o homem alcanou-a e entregou-lhe a capa
que ela tinha esquecido no guich da alfndega. Sua demora
tinha outra causa: a crbera tinha prestado ateno ao fato de
que ela viajava sem bagagem, e fizeram uma revista minuciosa
em cada um dos objetos de sua bolsa de mo, dos documentos
de identidade at objetos de toucador. No podiam imaginar,
naturalmente, que o pequeno aparelho de rdio japons que ela
levava era tambm uma arma que nos manteria em contato
com a resistncia interna atravs de uma freqncia especial.
Eu estava, porm, mais angustiado do que ela, pois calculei
que seu atraso tinha sido de mais de meia hora, e ela me provou
no txi que tinha sido de apenas seis minutos. O motorista, por
seu lado, terminou de me tranqilizar com a observao de que
no faltavam vinte minutos para o toque de recolher, conforme
eu pensava, e sim oitenta, pois meu relgio ainda tinha a hora
do Rio de Janeiro. Na verdade, eram dez e quarenta de uma
noite densa e gelada.


E foi para isto que eu vim?

        Na medida em que chegvamos perto da cidade, o jbilo
com lgrimas que eu tinha previsto para o regresso ia sendo
substitudo por um sentimento de incerteza. Na verdade o acesso
ao antigo aeroporto de Los Cerrillos era uma estrada antiga,
atravs de cortios operrios e quarteires pobres, que sofreram
uma represso sangrenta durante o golpe militar. O acesso
ao atual aeroporto internacional, em compensao,  uma auto-
estrada iluminada como nos pases mais desenvolvidos do mundo,
e isto era um mau princpio para algum como eu, que no
s estava convencido da maldade da ditadura, como necessitava
ver seus fracassos na rua, na vida diria, nos hbitos das pessoas,
para film-los e divulg-los pelo mundo. Mas a cada metro
que avanvamos, o desassossego original ia se transformando
numa franca desiluso. Elena me confessou mais tarde que ela
tambm, ainda que tivesse estado no Chile vrias vezes em
pocas recentes, tinha padecido o mesmo desconcerto.
        No era para menos. Santiago, ao contrrio do que me
contavam no exlio, aparecia como uma cidade radiante, com
seus venerveis monumentos iluminados e muita ordem e limpeza
nas ruas. Os instrumentos de represso eram menos visveis
do que em Paris ou Nova York. A interminvel Alameda
Bernardo Q'Higgins abria-se frente aos nossos olhos como uma
corrente de luz, vinda l da histrica Estao Central, construda
pelo mesmo Gustavo Eiffel que fez a torre de Paris. At
as putinhas sonolentas na calada oposta eram menos indigentes
e tristes que em outros tempos. De repente, do mesmo
lado em que eu viajava, apareceu o Palcio de La Moneda,
como um fantasma indesejado. Na ltima vez que eu o tinha
visto, era uma carcaa coberta de cinzas. Agora, restaurado e
outra vez em uso, parecia uma manso de sonho no fundo de
um jardim francs.
        Os grandes smbolos da cidade desfilavam pela janela do
automvel. O Club de la Unin, onde os momios mais velhos
se reuniam para manipular os cordes da poltica tradicional;
as janelas apagadas da Universidade, da igreja de San Francisco,
o palcio imponente da Biblioteca Nacional, as Lojas Paris.
Ao meu lado, Elena ocupava-se da vida real, convencendo o
motorista a que nos levasse ao hotel El Conquistador, pois ele
insistia em levar-nos a outro onde certamente lhe pagavam comisso.
Tratava-o com muito tato, sem dizer ou fazer nada que
pudesse ofend-lo ou que chamasse a sua ateno, pois muitos
motoristas de txi em Santiago si.j informantes da polcia. Eu
estava confuso demais para intervir.
        Na medida em que nos aproximvamos do centro da cidade,
desisti de olhar e admirar o brilho material com que a
ditadura tratava de apagar o rastro sangrento de mais de quarenta
mil mortos, dois mil desaparecidos e um milho de exilados. Em
compensao, me fixava nas pessoas, que andavam
com uma pressa inusitada, talvez pela proximidade do toque de
recolher. Mas no foi apenas isso o que me comoveu. As almas
estavam em seus rostos sacudidos pelo vento gelado. Ningum
falava, ningum olhava em nenhuma direo definida, ningum
gesticulava nem sorria, ningum fazia o menor gesto que delatasse
seu estado de esprito dentro dos casacos escuros, como
se todos estivessem sozinhos numa cidade desconhecida. Eram
rostos brancos que no revelavam nada, nem mesmo medo.
Ento comeou a mudar meu estado de alma, e no pude resistir
 tentao de sair do txi para me perder na multido. Elena
me fez todas as advertncias razoveis, mas nem tantas nem
to explcitas como gostaria, com medo de ser ouvida pelo motorista.
Preso de uma emoo irresistvel, fiz o txi parar e
desci batendo a porta.
        No caminhei mais do que duzentos metros, indiferente 
iminncia do toque de recolher, mas os primeiros cem foram
suficientes para recuperar a minha cidade. Caminhei pela Rua
Estado, pela Rua Hurfanos, por todo um setor fechado ao
trnsito de veculos para alegria dos pedestres, como a Rua
Florida de Buenos Aires, a Via Condotti de Roma, a Praa de
Beaeubourg em Paris, a Zona Rosa da Cidade do Mxico. Era
outra boa criao da ditadura, mas apesar dos locais para sentar
e conversar, a pesar da alegria das luzes, dos canteiros de flores
bem cuidadas, aqui a realidade ficava transparente. Os poucos
grupos que conversavam na esquina faziam isso em voz muito
baixa para no serem escutados pelos tantos ouvidos dispersos
da tirania, e havia vendedores de tudo que se possa imaginar,
e muitas crianas pedindo dinheiro a quem passava. O que mais
me chamou a ateno, porm, foram os pregadores evanglicos
tentando vender a frmula da felicidade eterna a quem quisesse
ouvi-los. De repente, ao virar uma esquina, me encontrei cara
a cara com o primeiro carabinero que eu via desde minha chegada.
Passeava com muita calma de um extremo a outro da
calada, e havia vrios numa cabine de vigilncia na esquina
da Rua Hurfanos. Senti um vazio no estmago, e os joelhos
comearam a falhar. Deu-me raiva a idia de que cada vez que
visse um polcia militar, um carabinero, fosse me sentir daquele
jeito. Mas rapidamente entendi que eles tambm estavam tensos, vigiando
com olhos ansiosos os transeuntes, e a impresso
de que tinham mais medo do que eu serviu de consolo. No
lhes faltava razo. Poucos dias depois da minha viagem ao
Chile, a resistncia clandestina mandou aquele posto de vigilncia
pelos ares, com dinamite.


O centro de minhas nostalgias

        Eram as chaves do passado. Ali estava o memorvel edifcio
do antigo Canal de Televiso e o Departamento de Audiovisuais,
onde eu tinha comeado minha carreira no cinema. Ali
estava a Escola de Teatro, onde cheguei vindo de minha cidade
do interior, aos dezesseis anos, para fazer um exame de admisso
que foi definitivo na minha vida. Ali fazamos tambm as
concentraes polticas da Unidade Popular, e ali eu tinha vivido
meus anos mais difceis e decisivos. Passei pelo Cine City,
onde vi pela primeira vez as obras-primas que at hoje me exaltam
a vocao, e entre elas a menos esquecvel de todas: Hiroshima,
mon amour. De repente, algum passou cantando a
clebre cano de Pablo Milans: Yo pisar las calles nuevamente,
de lo que /ue Santiago ensangrentada. Era uma casualidade
grande demais para ser suportada sem que eu sentisse
um n na garganta. Tremendo at os ossos esqueci a hora,
esqueci minha identidade, minha condio clandestina, e por
um instante voltei a ser eu mesmo e ningum mais em minha
cidade recuperada, e tive que resistir ao impulso irracional de
me identificar gritando meu nome com todas as foras da minha
voz, e enfrentar quem quer que fosse pelo direito de estar na
minha ca;a.
        Regressei chorando ao hotel, quase em cima do toque de
recolher, e o porteiro teve que abrir a porta que acabara de
fechar. Elena tinha nos registrado na recepo, e j estava no
quarto, colocando a antena do rdio porttil. Parecia tranqila,
mas quando me viu entrar explodiu como uma esposa exemplar.
No podia admitir que eu tivesse corrido o risco gratuito
de caminhar sozinho pelas ruas at o instante exato do toque
de recolher. Mas eu no estava ali disposto a ouvir sermes, e
tambm me comportei como um marido exemplar. Sa batendo
a porta, e fui procurar a equipe italiana dentro do mesmo hotel.
        Bati no quarto 306, dois andares abaixo do nosso, e me
preparei para mm cometer enganos na longa senha que tnhamos
combinado com a diretora da equipe, em Roma, dois meses
antes. Urna voz meio adormecida - a clida voz de Grazia,
que eu teria reconhecido sem necessitar nenhum cdigo
me perguntou, l de dentro:
        -        Quem ?
        -        Gabriel.
        -        O que mais? -- perguntou Grazia.
        -        Os Arcanjos - disse eu.
        -        So Jorge e So Miguel?
        Sua voz, em vez de serenar-se com a certeza das respostas,
ficava cada vez mais trmula. Era estranho, porque tambm
ela deveiia conhecer minha voz depois de nossas longas conversas
na Itlia, mas mesmo assim prolongou a troca de senhas
depois de eu ter confirmado que os arcanjos eram So Jorge
e So Miguel.
        -        Sarco - disse ela.
        Era o sobrenome do personagem do filme que no fiz em
San Sebastin - Viajero de las Quatro Estaciones - e respondi
com o nome:
        -        Nicols.
        -        Grazia - que  uma jornalista curtida em misses
difceis - no se conformou com tantas provas.
        -        Quantos ps de filme? - perguntou.
        Ento eu entendi que queria continuar a troca de senhas
at o fim, que estava muito distante, e temi que aquele jogo
suspeito fosse ouvido pelos quartos vizinhos.
        -        Pra de encher o saco e abre a porta - disse.
        Mas ela, com o rigor que iria se manifestar a cada minuto
dos prximos dias, no abriu a porta at o fim do cdigo. "Maldio",
disse a mim mesmo, pensando no s em Elena, mas
tambm em Ely. "Todas as mulheres so iguais". E continuei
respondendo ao questionrio com o que mais detesto na vida,
        que  a submisso dos maridos domesticados. Quando chegamos
 ltima linha, a mesma Grazia juvenil e encantadora que
eu tinha conhecido na Itlia abriu a porta sem medo, olhou-me
como se tivesse visto um fantasma, e tornou a fech-la aterrorizada.
Mais tarde, me disse: "Vi voc como algum que j
tinha visto antes, mas que no sabia quem era". Era compreensvel.
Na Itlia tinha conhecido um Miguel Littn descuidado,
com barba, sem culos e vestido de qualquer jeito, e o homem
que tinha batido em sua porta era calvo, mope e bem barbeado,
e estava vestido feito um gerente de banco.
-        Abre tranqila - disse -, sou Miguel.
        Mesmo depois de me examinar com ateno, e ter-me
deixado entrar, continuava olhando para mim com certa reticncia.
Antes de me cumprimentar, tinha colocado o rdio a
todo vapor, para impedir que nossa conversa fosse escutada
nos quartos vizinhos ou gravada por microfones ocultos. Mas
estava tranqila. Tinha chegado uma semana antes com sua
equipe de trs pessoas, e j tinham as credenciais e as autorizaes
para trabalhar, graas aos bons ofcios de sua embaixada,
cujos funcionrios ignoravam, naturalmente, qual era o nosso
verdadeiro propsito. Mais ainda: j tinha comeado a filmar
os altos funcionrios do regime que assistiram algumas noites
antes a uma representao de gala de Madame Butter/ly, oferecida
pela Embaixada Italiana no Teatro Municipal. O general
Pinochet tinha sido convidado, mas desculpou-se na ltima hora
e no foi. Mesmo assim, a equipe italiana ter ido  sesso de
gala foi muito importante para ns, porque desta forma estabeleceu-se
de modo oficial sua presena em Santiago, e seria vista
pelas ruas sem nenhum problema nos dias seguintes. Alm disso
a autorizao para filmar no interior do Palcio de la Moneda
estava em andamento, e quem a solicitou tinha recebido garantia
de que no haveria nenhum obstculo.
        A notcia me entusiasmou tanto que quis comear a trabalhar
imediatamente. Se no fosse o toque de recolher, teria
pedido a Grazia que acordasse o resto da equipe para que
        fssemos deixar o testemunho de minha primeira noite de
regresso. Fizemos planos concretos para comear a filmar nas
primeiras horas da manh, mas concordamos que o resto da
equipe no deveria conhecer o programa antecipadamente, e
deveria achar que era ela quem os dirigia. Tnhamos avanado
muito, tomando goles de grappa, uma aguardente italiana que
era fogo vivo e que ela levava sempre, quase como um amuleto,
quando o telefone tocou. Saltamos os dois ao mesmo tempo, e
Grazia agarrou-o no meio de um vo, escutou um instante e
tornou a desligar. Era algum da recepo do hotel que pedia
para diminuir o volume da msica porque um hspede dos
quartos vizinhos tinha se queixado.


Um pavoroso silncio para recordar

        Foram demasiadas emoes para um dia s. Quando voltei
ao meu quarto, Elena navegava num sono de paz, mas tinha
deixado acesa a luz da minha cabeceira. Despi-me sem rudos,
preparando-me para dormir o sono dos justos, mas foi impossvel.
Assim que me estendi na cama tomei conscincia do silncio
pavoroso do toque de recolher. No posso imaginar outro
silncio igual no mundo. Um silncio que me oprimia o peito,
e continuava oprimindo mais e mais, e no terminava nunca.
No havia um nico rudo de gua na tubulao, nem a respirao
de Elena, nem os prprios rudos dentro de mim mesmo.
        Levantei-me agitado e pus a cara na janela, tratando de
respirar o ar livre da rua, tratando de ver a cidade deserta mas
real, e nunca a tinha visto to solitria e triste desde que cheguei
pela primeira vez nos dias incertos da minha adolescncia.
A janela estava num quinto andar, e dava para uma rua sem
sada de muros altos e chamuscados, por cima dos quais s se
via um pedao do cu atravs de uma neblina cinzenta. No
me senti na minha terra, nem mesmo na cidade real, e sim
um criminoso cercado dentro de um dos velhos filmes invernais
de Marcel Carn.
        Doze anos antes, s sete da manh, um sargento do exrcito
 frente de uma patrulha tinha soltado sobre a minha cabea uma rajada
de metralhadora, e mandou que eu me juntasse ao grupo de prisioneiros
que iam sendo levados ao edifcio
da Chile Films, onde eu trabalhava. A cidade inteira se estremecia
com as cargas de dinamite, os disparos de armas pesadas,
os vos rasantes dos avies de guerra. O sargento que tinha
me prendido andava to perturbado que me perguntou o que
estava acontecendo. "Ns somos neutros", ele dizia. Mas no
soube por que dizia, nem a quem inclua no plural. Num momento
em que ficamos sozinhos, me perguntou:
-        O senhor  o que fez El Chacal de Nahualtoro?
        Respondi que sim, e pareceu esquecer-se de tudo, dos
tiros, as exploses de dinamite, das bombas incendirias no palcio
dos presidentes, e me pediu que lhe explicasse como se
faz para que saia sangue das feridas dos falsos mortos do cinema.
Expliquei a ele, e pareceu fascinado. Mas quase em seguida
voltou  realidade.
        -        No olhem para trs - gritou para ns - porque
lhes arranco a cabea.
        Teramos achado que era uma brincadeira, mas minutos
antes tnhamos visto os primeiros mortos na rua, um ferido
exaurindo-se em sangue sem o auxlio de ningum, bandos de
civis arrematando a porradas os partidrios do presidente Salvador
Allende. Tnhamos visto um grupo de prisioneiros de
costas contra um muro, e um peloto de soldados fingindo fuzil-los.
Mas os mesmos soldados que nos conduziam perguntavam
o que estava acontecendo, e insistiam: "Ns somos neutros". O estrondo
e a confuso eram enlouquecedores.
        O        edifcio da Chile Films estava rodeado de soldados com
metralhadoras armadas em trips, apontando para a entrada
principal. O porteiro de boina negra, com a insgnia do Partido
Socialista, saiu ao nosso encontro.
        -        Ah - gritou apontando para mim - ,esse cavalheiro,
o senhor Littn,  o responsvel por tudo o que acontece aqui.
        O        sargento deu-lhe um empurro que o botou no cho.
        -        V  merda - gritou para ele. - No seja veado.
        O        porteiro ficou de quatro, aterrorizado, e me perguntou:
        -        No toma um cafezinho, senhor Littn? Um cafezinho?
        o        sargento me pediu que averiguasse por telefone o que
estava acontecendo. Tentei faz-lo, mas no consegui me comunicar com ningum. A cada instante entrava um oficial que dava
uma ordem, e depois outro que dava a ordem contrria: que
fumssemos, que no fumssemos, que nos sentssemos, que
ficssemos em p. No fim de uma meia hora chegou um soldado
muito jovem e me apontou com o fuzil.
        -        Oua-me, sargento - disse - est a uma senhora
loura perguntando por este cavalheiro.
        Era Ely, sem dvida. O sargento saiu para falar com ela.
Enquanto isso, os soldados nos contaram que tinham sido chamados
de madrugada, que no tinham tomado o caf-da-manh,
que tinham ordens para no aceitar nada, que sentiam fome.
A nica coisa que fizemos por eles foi deixar-lhes nossos cigarros.
        Estvamos nisso quando o sargento voltou com o tenente
que comeou a identificar os prisioneiros para lev-los ao estdio.
Quando chegou a minha vez, o sargento no me deu tempo
de responder.
        -        No, tenente - disse ao oficial -, este senhor no
tem nada a ver, veio aqui para apresentar uma queixa porque
uns vizinhos destroaram seu automvel a pauladas.
        O        tenente me olhou perplexo.
        -        Como  que voc pode ser to babaca para reclamar
alguma coisa neste momento? - exclamou. - Saia daqui
voando.
        Sa em disparada, certo de que iam atirar em mim pelas
costas sob o eterno pretexto da Lei de Fuga. Mas no foi nada
disso. Ely, a quem um amigo tinha dito que haviam me fuzilado
na frente da Chile Films, viera buscar o cadver. Em
vrias casas da rua estavam hasteando bandeiras, que era o
cdigo combinado para que os militares reconhecessem seus
partidrios. Por outro lado, j tnhamos sido denunciados por
uma vizinha que conhecia nossa relao com o governo, minha
participao entusistica na campanha presidencial de Allende,
as reunies que eram feitas em minha casa enquanto o golpe
militar ia se tornando iminente. Por tudo isso, no voltamos
para casa. Passamos um ms mudando de um lugar a outro,
com as trs crianas e as coisas mais indispensveis, fugindo
da morte que nos pisava os calcanhares, at que o cerco tornou-se
to asfixiante que nos meteu  fora no tnel do exiio.

* * *


-3-
TAMBM OS QUE FICARAM
SO EXILADOS


        s oito da manh pedi a Elena que ligasse para um numero de
telefone que s eu conhecia, e perguntasse por algum
que prefiro chamar por um nome falso: Franquie. Atendeu ele
mesmo, e ela pediu sem maiores explicaes, da parte de Gabriel,
que fosse ao quarto 501 do hotel El Conquistador. Em
menos de meia hora ele chegou. Elena j estava pronta para
sair, mas eu continuava na cama, e quando ouvi baterem na
porta me cobri com o cobertor ate a cabea. Na verdade, Franquie
no sabia quem ia encontrar, pois tnhamos combinado
que todo mundo que telefonasse para ele com o nome de Gabriel era
enviado por mim. Nos ltimos dias ele tinha sido
chamado por trs Gabriis que dirigiam equipes de filmagem,
inclusive Grazia, e no tinha por que nem ao menos suspeitar
que este novo Gabriel fosse eu mesmo.
        ramos amigos de muito antes da Unidade Popular, tnhamos
trabalhado juntos em meus primeiros filmes, tnhamos nos
encontrado em vrios festivais de cinema, e tnhamos nos visto
pela ltima vez no ano anterior, no Mxico. Mas quando descobri a
cara no me reconheceu, at que soltei o riso, que  meu
ao inconfundvel. Isto me deu uma confiana maior em minha nova
aparncia.
        Franquie tinha sido recrutado por mim no final do ano
anterior. Foi o encarregado de receber separadamente e de distribuir
instrues preliminares s equipes de filmagem, e de
fazer uma srie de contatos bsicos que facilitassem nosso trabalho
sem interferir nas orientaes de Elena. Tinha uma ficha
limpa:  chileno, tinha se exilado em Caracas por deciso prpria
depois do golpe militar, sem que existisse nenhuma acusao
contra ele, e tinha cumprido desde ento numerosas missoes
ilegais dentro do Chile, onde se movia com liberdade total e
com uma cobertura irretocvel. Sua popularidade entre o pessoal
do cinema, sustentada por sua simpatia, sua imaginao e
sua audcia, faziam dele o scio ideal para aquela aventura.
No me enganei. De acordo com o combinado tinha entrado sozinho
por terra, do Peru, uma semana antes, para receber e
coordenar separadamente as trs equipes, que j estavam trabalhando.
A equipe francesa andava pelo norte do pas, filmando
de Anca a Valparaso, de acordo com um plano minucioso
que seu diretor e eu tnhamos combinado meses antes em Paris.
A equipe holandesa fazia a mesma coisa no sul. A italiana permaneceria
em Santiago trabalhando sob minha direo direta,
e preparada alm disso para filmar qualquer acontecimento imprevisto.
As trs tinham a instruo de interrogar as pessoas
sobre Salvador Allende sempre que tivessem uma oportunidade
de faz-lo sem riscos nem despertar suspeitas, pois pensvamos
que o presidente mrtir era o melhor ponto de referncia para
estabelecer a posio de cada chileno em relao ao pas atual
e s suas possibilidades futuras.
Franquie tinha o itinerrio preciso de cada equipe, assim
como a lista dos hotis onde estariam, de maneira que podia
comunicar-se com elas a qualquer momento. Isto fazia com que
fosse possvel que eu lhes desse instrues pessoais por telefone.
Para maior segurana, Franquie seria o meu motorista,
com automveis alugados que trocaramos a cada trs ou quatro
dias em diferentes agncias. Durante o tempo inteiro que durou
a filmagem nos separamos pouqussimas vezes.


Trs degolados derrubam um general

        Comeamos a trabalhar s nove da manh. A Plaza de
Armas, a poucos quarteires do hotel, era mais comovedora na
realidade que em minhas lembranas, debaixo do sol plido e
mrno do outono austral que se filtrava entre grandes rvores.
As flores de sempre, que so renovadas a cada semana, me pareceram
mais frescas e luminosas que nunca. A equipe italiana
tinha comeado uma hora antes a filmar a rotina matinal: os
aposentados que liam jornal nos bancos de madeira, os ancios
que davam de comer aos pombos, os vendedores de bugigangas,
os fotgrafos lambe-lambe com suas cmaras ancronicas, os
desenhistas que faziam caricaturas em trs minutos, os engraxates
suspeitos de serem informantes do regime, as crianas
com seus bales coloridos na frente das carrocinhas de sorvete,
as pessoas que saam da Catedral. Num canto da praa estava
o grupo habitual de artistas desempregados  espera de serem
contratados para festas imprevistas: msicos conhecidos, magos
e palhaos de criana, travestis com roupas e maquiagem extravagantes
cujo sexo real  impossvel de se determinar. 
diferena da noite anterior, naquela bela manh estavam estacionadas
na praa vrias patrulhas de carabineros, vigilantes e
bem armados, de cujos nibus com potentes equipamentos de        4
som saam canes da moda, a todo vapor.
        Mais tarde descobri que a escassez de fora pblica nas
ruas era uma pura iluso para recm-chegados. A toda hora h
patrulhas de choque escondidas nas estaes principais do metr,
e caminhes equipados com mangueiras de gua a alta
presso nas ruas laterais, prontos para reprimir com sanha brutal
qualquer exploso de protesto das tantas que ocorrem todos
os dias, intempestivamente. A vigilncia  mais intensa na Plaza
de Armas, centro nevrlgico de Santiago, onde est a sede
da Vicaria de ia Solidariedad, que  um grande bastio contra
a ditadura auspciado pelo cardeal Silva Henrquez e com o
apoio no apenas dos catlicos mas de todos os que lutam pelo
retorno da democracia no Chile. Isto lhe deu um foro moral
difcil de ser contrariado, e o amplo ptio ensolarado de sua
casa colonial se parece, o tempo inteiro, com uma praa de
mercado. Ali encontram refgio e amparo humanitrio os perseguidos
de todas as cores, e  uma via rpida para ajudar quem
precisa, com a certeza de que essa ajuda chegar onde deve chegar,
especialmente aos presos polticos e suas famlias. Tambm
dali so denunciadas as torturas e incentivadas as campanhas
pelos desaparecidos, e contra todo tipo de injustia.
        Poucos meses antes de meu regresso clandestino, a ditadura
lanou contra a Vicaria um desafio sangrento que acabou
se voltando contra a prpria Junta Militar e ps em perigo sua
estabilidade. No final de fevereiro de 1985, trs militantes de
oposio foram seqestrados com um alarde de fora que no
permitia pr em dvida quem eram seus autores. O socilogo
Jos Manuel Parada, funcionrio da Vicaria, foi preso na presena
de seus filhos pequenos na frente da escola onde eles
estudavam, enquanto o trnsito era cortado pela polcia trs
quarteires ao redor e todo o bairro era controlado por helicpteros
militares. Os outros dois foram seqestrados em lugares
distintos na cidade, com poucas horas de diferena. Um
era Manuel Guerrero, dirigente da Associao Sindical da Educao
no Chile, e o outro era Santiago Nattino, um desenhista
grfico de grande prestgio profissional, de quem no se sabia,
at aquele momento, que tivesse militncia ativa. No meio do
estupor nacional, os trs cadveres degolados e com marcas de
sevcia selvagem apareceram no dia 2 de maro de 1985, num
caminho solitrio perto do aeroporto internacional de Santiago.
O general Csar Mendoza Durn, comandante dos carabineros
e membro da Junta do Governo, declarou  imprensa
que o crime era o resultado das lutas internas dos comunistas,
dirigidos por Moscou. Mas a reao nacional desfez a calnia
e o general Mendoza Durn, apontado pela opinio pblica
como o promotor da matana, teve que abandonar o governo.
A partir de ento, o nome da Rua Puente, uma das quatro que
saem da Plaza de Armas, foi apagado da placa por mos desconhecidas,
e em seu lugar foi posto o nome com que agora ela
 conhecida: Rua Jos Manuel Parada.
Quero felicit-lo por ser uruguaio

        O mal-estar daquele drama selvagem ainda estava no ar
na manh em que Franquie e eu chegamos como dois transeuntes
a mais na Plaza de Armas. Vi que a equipe de filmagem
estava no lugar que Grazia e eu tnhamos combinado na noite
anterior, e que ela percebeu nossa passagem. Mas naquele momento,
ela no deu nenhuma ordem ao cinegrafista. Ento
Franquie separou-se de mim, e eu assumi a direo pessoal do
filme com o mtodo que tinha estabelecido de antemo com
os diretores das trs equipes. A primeira coisa que fiz foi o
percurso preliminar dos caminhos de paraleleppedos, parando
em lugares diferentes para indicar a Grazia os momentos e a
direo em que deviam filmar quando eu repetisse o percurso.
Nem ela nem eu devamos buscar no momento nenhum detalhe
que tornasse evidente o regime repressivo latente nas ruas. Naquela
manh tratava-se apenas de procurar a atmosfera de um
dia qualquer, com nfase especial ao comportamento das pessoas,
que continuavam parecendo para mim, tal como o percebi
na noite anterior, muito menos comunicativas que em outros
tempos. Andavam mais depressa, quase que sem se interessar
pelo que acontecia enquanto caminhavam, e mesmo quem conversava tinha
um ar sigiloso e no acentuava as palavras com
as mos,corno eu lembrava que faziam os chilenos de antes,
e como continuam fazendo os do exlio. Eu caminhava entre
os grupos, levando no bolso da camisa um gravador miniatura,
muito sensvel, para captar conversas que me serviriam para
organizar melhor no s aquela primeira jornada, mas o conjunto
do filme.
        Depois de mostrar os pontos de filmagem, me sentei para
escrever algumas anotaes ao lado de uma senhora que tomava
sol num dos bancos da praa, em cujas barras de madeira pintadas
de verde havia nomes e coraes inscritos a canivete na
madeira por vrias geraes de namorados. Como sempre esqueo
a caderneta de anotaes, escrevia no verso das caixinhas
de "Gitane", os clebres cigarros franceses, dos quais tinha
comprado uma boa proviso em Paris. Fiz assim ao longo da
rodagem do filme, e embora no tenha sido com este propsito
que conservei as caixinhas, as anotaes me serviram como um
dirio de bordo para reconstruir neste livro os pormenores da
viagem.
        Enquanto escrevia naquela manh na Plaza de Armas,
notei que a senhora ao meu lado me observava de vis. Era de
idade tranqila, e estava vestida ao modo antiquado da classe
mdia baixa, com um chapu muito usado e um sobretudo com
gola de pele. Eu no entendia o que ela fazia ali, sozinha e calada,
sem olhar para nenhum ponto definido, sem reagir de
nenhum modo aos pombos que davam voltas sobre nossas cabeas
e bicavam as pontas de nossos sapatos. No teria entendido
nunca se no fosse porque ela me disse mais tarde que
tinha sentido frio durante a missa e queria tomar sol alguns
minutos antes de se meter no metr. Fingindo ler o jornal, notei
que me examinava da cabea aos ps, sem dvida porque minhas
roupas eram menos comuns das de quem costumava andar
pela praa naquela hora. Sorri para ela, que me perguntou de
onde eu era. Ento liguei o gravador com uma presso imperceptvel
sobre o bolso da camisa.
        -        Uruguaio - disse.
        -        Ah - disse ela. - Quero felicit-lo pela sorte que
vocs tm.
        Referia-se ao retorno do sistema eleitoral no Uruguai, e
falava disso com um terna memria de seu prprio passado.
Eu me fiz de distrado, tentando que ela fosse mais explcita,
mas no consegui que me fizesse alguma confidncia sobre sua
situao. Entretanto, me falou sem reservas da falta de liberdades
individuais e dos dramas do desemprego no Chile. Num
certo momento me mostrou os bancos de desempregados, palhaos,
msicos, travestis, cada vez mais numerosos.
        -        Olhe para essa gente - disse ela. - Passam dias
inteiros esperando ajuda, porque no tm trabalho. Existe fome
em nosso pas.
        Deixei-a falar. Depois iniciei a segunda caminhada na praa,
quando calculei que j tinha passado meia hora da primeira,
e ento Grazia mandou o cinegrafista me filmar sem se aproximar
de mim, e tomando cuidado para no ser muito evidente
para os carabineros. Mas o problema era o contrrio: era eu
quem no perdia de vista os carabineros, porque continuavam
exercendo em mim uma fascinao difcil de resistir.
        Embora os camels sempre tenham existido no Chile, no
me lembro de que fossem tantos como agora.  difcil conceber
um lugar do centro comercial onde no os encontremos em
longas filas silenciosas. Vendem de tudo, e so to numerosos
e diferentes, que basta sua presena para revelar todo um drama
social. Ao lado de um mdico desempregado, um engenheiro
fracassado ou uma senhora com ares de marquesa que entregam
por qualquer preo suas roupas de tempos melhores, h
meninos sem pais oferecendo coisas roubadas ou mulheres humildes
tratando de vender pes feitos em casa. Mas a maioria
desses profissionais em desgraa renunciou a tudo, menos 
dignidade. Atrs das barracas de bugigangas continuam vestidos
como em seus prsperos escritrios de antes. Um chofer
de txi que tinha sido um prspero comerciante de tecidos
levou-me num passeio turstico de vrias horas por meia cidade,
e no final se negou a cobrar pelo servio.
        Enquanto o cinegrafista filmava o ambiente da praa, eu
andava no meio da gente captando fragmentos de dilogos
que haveriam de me servir depois para um comentrio ilustrativo
das imagens, tomando cuidado para no comprometer ningum
que mais tarde pudesse ser identificado nas telas. Grazia
me observava com ateno de outro ngulo, e eu a observava
tambm. Estava seguindo minhas instrues de iniciar as tomadas
nos edifcios mais altos, e depois descer pouco a pouco,
deslocar a cmara para os lados, e terminar filmando os carabineros.
Queramos captar a tenso de seus rostos, muito mais
notvel na medida em que aumentava a animao na praa, conforme
se aproximava o meio-dia. Mas eles notaram rapidamente
a trajetria da cmara, sentiram-se. observados, e exigiram de
Grazia a licena para filmar naquela rua. Vi como ela mostrou
a licena, vi a rapidez com que o guarda se deu por satisfeito,
e continuei meu caminho com uma sensao de alvio. Mais
tarde soube que aquele carabinero pediu a Grazia que no os
filmasse, mas no teve argumentos quando ela replicou que
essa proibio no figurava na licena, e invocou sua condio
de italiana para no aceitar ordens vindas sabe-se l de onde.
O        dado me interessou, porque demonstrava, efetivamente que
o        fato de ser uma equipe europia tinha no Chile as vantagens
que havamos previsto.


Tambm os que ficam so exilados

        Os carabineros tinham se transformado em uma obsesso
para mim. Passei vrias vezes muito perto deles, procurando
uma ocasio para conversar. De repente, por um impulso irresistvel
me aproximei de uma patrulha, e fiz algumas perguntas
sobre o edifcio colonial da prefeitura, avariado pelo terremoto
de maro anterior, que estava sendo reconstrudo. O guarda
respondeu sem me olhar, pois no perdia de vista nenhum detalhe
do que ocorria na praa. A atitude de seu companheiro
era a mesma, s que, de vez em quando, me olhava com o
canto dos olhos com uma impacincia crescente, porque comeava
a notar a teimosia deliberada das minhas perguntas. Depois
me olhou de frente com uma expresso terrvel, e ordenou:
        - Circule!
        Mas eu tinha rompido o feitio, e a inquietao que me
provocavam tinha-se transformado em uma certa embriaguez.
Em vez de obedecer-lhe comecei a dar-lhe uma lio sobre o
comportamento que a polcia estava obrigada a observar frente
~ curiosidade de um estrangeiro pacfico. No percebia, porm,
jue meu falso sotaque uruguaio no suportava uma prova to
Iifcil, at que o carabinero se cansou do meu discurso cvico
~ mandou que eu me identificasse.
        Talvez em nenhum momento da viagem tenha sofrido uma
Jescarga de terror como aquela. Pensei em tudo: ganhar tempo,
resistir, e at escapar com toda pressa, mesmo sabendo que
seria alcanado. Pensei em Elena, que estava sabia-se l onde
naquela hora, e s vi, como uma luzinha remota, que o cinegrafista
filmara tudo e que aquela prova irrefutvel de minha
captura seria divulgada no exterior. Alm disso, Franquie andava
por perto, e conhecendo-o do jeito que eu conhecia, estava
certo de que no tinha me perdido de vista. A coisa mais
fcil,  claro, era me identificar com o passaporte, j provado
em vrios aeroportos. Em compensao, temia ser revistado,
pois s naquele momento recordei um erro mortal que levava
comigo. Na mesma carteira onde ia o passaporte estava minha
verdadeira carteira chilena de identidade, que tinha ficado ali
por descuido, e um carto de crdito com meu nome real. Consciente
de que no tinha outro remdio a no ser assumir o
menos grave dos riscos, mostrei o passaporte. O carabinero,
que tampouco estava muito seguro do que deveria fazer, deu
uma olhada na foto, e me devolveu o passaporte com um gesto
menos spero.
-        Que  o que quer saber sobre esse edifcio? - me

perguntou.

e
Enchi os pulmes.
-        Nada - disse. - Estava s enchendo o saco.
        Aquele incidente curou-me, pelo resto da viagem, da inquietao
que me provocavam os carabineros. Desde ento, os
vi com a mesma naturalidade com que eram vistos pelos chilenos
legais, e at os clandestinos - que so muitos -, e
duas ou trs vezes tive de pedir-lhe favores ocasionais, que fizeram
com boa vontade. Entre outros favores nada menos que
abrir caminho at o aeroporto com uma radiopatrulha, para
que eu pudesse alcanar um avio internacional minutos antes
de que a polcia descobrisse minha presena em Santiago. Elena
no pode entender que algum desafiasse a polcia s para aliviar
tenso, e nossas relaes de trabalho, que j tinham vrias
trincas perigosa, comearam a quebrar.
        Ainda bem que eu me arrependi de minha imprudncia
antes que ela ou algum me chamasse a ateno. Assim que o
carabinero me devolveu o passaporte fiz para Grazia o sinal
combinado para que desse a filmagem por encerrada. Franquie,
por sua vez, que tinha visto tudo de um lado da praa com
uma ansiedade igual  minha, apressou-se para me encontrar,
mas eu pedi a ele que fosse me buscar no hotel depois do almoo.
Queria ficar sozinho.
        Sentei-me num banco para ler os jornais do dia, mas passava
as linhas sem v-las, porque era to grande a emoo que
sentia por estar sentado ali naquela difana manh outonal,
que no podia me concentrar. De repente soou o distante disparo
de canho que marca o meio-dia em Santiago, os pombos
voaram espantados, e os carrilhes da Catedral soltaram no ar
as notas da cano mais comovedora de Violeta Parra: Gracias
a la Vida. Era mais do que eu podia suportar. Pensei em Violeta,
pensei em suas fomes e suas noites sem teto em Paris,
pensei em sua dignidade a toda prova, pensei que sempre houve
um sistema que a negou, que nunca sentiu suas canes e desprezou
sua rebeldia. Um presidente glorioso teve que morrer
lutando a tiros, e o Chile tinha tido que padecer o martrio
mais sangrento de sua histria, e a prpria Violeta Parra teve
que morrer por suas prprias mos, para que sua ptria descobrisse
as profundas verdades humanas e a beleza de seu canto.
At os carabineros a escutavam com devoo, sem a menor
idia de quem era ela, nem o que pensava, nem por que cantava
em vez de chorar, nem quanto os teria detestado se estivesse
ali padecendo o milagre daquele outono esplndido.
        Ancioso por ir resgatando o passado palmo a palmo, fui
sozinho a uma penso na parte alta da cidade, onde Ely e eu
costumvamos almoar quando ramos namorados. O lugar era
o mesmo, ao ar livre,
com mesas debaixo dos lamos e muitas flores desaforadas,
mas dava a impresso de algo que h muito tempo tinha deixado de
ser. No havia nenhuma alma viva.
Tive que reclamar para que me atendessem, e demoraram quase
uma hora para me servir um bom pedao de carne assada Estava a ponto de
terminar quando
entrou um casal que eu no via desde que Ely e eu ramos clientes
assduos.
Ele se chamava
Ernesto, e era mais conhecido por Neto, e ela se chamava
Elvira. Tinham um comrcio sombrio a poucos quarteires
dali, onde vendiam imagens e medalhas de santos, camndulas,
relicrios e ornamentos fnebres. Mas no se pareciam com o
seu negcio, pois eram gozadores e engenhosos, e alguns sbados
de tempo bom costumvamos ficar ali at muito tarde
bebendo vinho e jogando cartas. Ao v-los entrar de mos
dadas, como sempre, no apenas me surpreendeu sua fidelidade
ao mesmo lugar depois de tantas transformaes no mundo,
como dois namorados tardios, entusiastas e geis, e agora me
pareciam dois ancios gordos e melanclicos. Foi como um espelho
onde vi de repente minha prpria velhice. Se eles tivessem
me reconhecido teriam me visto sem dvida com o mesmo
estupor, mas me protegeu o escafandro de uruguaio rico. Comeram
numa mesa prxima, conversando em voz alta mas j
sem os mpetos de outros tempos, e s vezes me olhavam sem
curiosidade, e sem a menor suspeita de que algum dia tnhamos
sido felizes na mesma mesa. S naquele momento tive conscincia
de como eram longos e devastadores os anos de exlio.
E no apenas para os que fomos embora, como supunha at
ento, mas tambm para eles: os que ficaram.

43


* * *


-4-
OS CINCO PONTOS CARDEAIS
DE SANTIAGO


        Filmamos em Santiago mais cinco dias, tempo suficiente
para comprovar a utilidade do nosso sistema, enquanto eu me
mantinha em contato telefnico com a equipe francesa, no
norte, e com a equipe holandesa, no sul. Os contatos de Elena
eram muito eficazes, de maneira que pouco a pouco ia marcando
entrevistas que queramos fazer com dirigentes clandestinos,
e tambm com personalidades polticas que atuam na legalidade.
        Eu, por meu lado, tinha me resignado a no ser eu mesmo.
Era um sacrifcio duro para mim, sabendo que havia tantos
parentes e amigos que queria ver - comeando por meus pais
- e tantos instantes da minha juventude que desejava reviver.
Mas estavam num mundo proibido, pelo menos enquanto terminvamos
o filme, de maneira que torci o pescoo dos afetos
e assumi a condio estranha de exilado dentro de meu prprio
pas, que  a forma mais amarga de exlio.
        Poucas vezes estive desamparado nas ruas, mas sempre
me senti sozinho. Em qualquer lugar que estivesse, os olhos
da resistncia me protegiam sem que nem eu mesmo notasse.
S quando fiz entrevistas com pessoas de absoluta confiana,
s quais no desejava comprometer nem mesmo frente a meus
prprios amigos, solicitei antecipadamente a retirada da custdia.
Mais tarde, quando Elena terminou de me ajudar a encarrilhar
o trabalho, eu j tinha treinamento suficiente para me
virar sozinho, e no tive nenhum problema. O filme foi feito
como estava previsto, e nenhum de meus colaboradores sofreu
o menor aborrecimento por um descuido meu, ou por um erro.
Mesmo assim, um dos responsveis pela operao me disse
bem humorado quando j estvamos fora do Chile:
        - Nunca, desde que o mundo  mundo, foram violadas
tantas vezes e de forma to perigosa tantas normas de segurana.
        O        fato essencial, em todo caso, era que em menos de uma
semana tnhamos superado o plano de filmagem em Santiago.
Um plano muito flexvel, que permitia todo tipo de mudanas,
e a realidade nos demonstrou que era a nica maneira de atuar
numa cidade imprevisvel que a cada momento nos dava uma
surpresa e nos inspirava idias insuspeitveis.
        At ento tnhamos mudado trs vezes de hotel. O Conquistador
era confortvel e prtico, mas estava no ncleo da
represso, e tnhamos motivo para pensar que era um dos mais
vigiados. A mesma coisa ocorria sem dvida com todos os hotis
de cinco estrelas onde havia um movimento constante de
estrangeiros, que so suspeitos eternos para os homens da ditadura.
Nos de segunda categoria, porm, onde o controle de
entradas e sadas costuma ser mais rgido, temamos chamar
mais a ateno. Portanto o mais seguro era mudar-nos cada dois
ou trs dias sem preocupar-nos com as estrelas, mas sem repetir
nunca um hotel, pois tenho a superstio de que sempre
me dou mal se retorno a um lugar onde corri algum risco. Esta
crena surgiu em mim no dia 11 de setembro de 1973, enquanto
a aviao bombardeava o Palcio de la Moneda e a confuso
se apoderava da cidade. Eu tinha conseguido escapar sem problemas
dos escritrios da Chile Films, onde tinha ido tentar
resistir ao golpe com meus companheiros de sempre, e depois
de levar em meu automvel at o Parque Florestal um grupo
de amigos que tinham motivos para temer por suas vidas, cometi
o grave erro de regressar. Salvei-me por milagre, como
j contei.
        Como precauo adicional nas mudanas de hotis, Elena
e eu decidimos ocupar quartos separados depois da terceira
mudana, cada um com uma nova personalidade. s vezes me
registrava como gerente e ela como secretria, e s vezes como
se no nos conhecssemos. Alm do mais, esta separao paulatina
correspondia muito bem ao estado de nossas relaes,
muito frutferas no trabalho, mas cada vez mais difceis no
campo pessoal.
        Devo dizer que entre os muitos hotis onde nos alojamos,
s em dois tivemos algum motivo de inquietao. Primeiro
foi no Sheraton. Na mesma noite de nosso registro, o
telefone da mesinha de cabeceira tocou quando eu acabava de
adormecer. El~na tinha ido a uma reunio secreta que se prolongou
alm do previsto, e teve que ficar para dormir na casa
onde fora surpreendida pelo toque de recolher, como haveria
de ocorrer vrias vezes. Atendi atordoado, sem saber onde eu
estava, e pior ainda, sem recordar quem eu era naquele momento.
Uma voz chilena perguntou por mim, mas com o nome
postio. Ia responder que no conhecia esse senhor, quando
acabei de despertar pelo impacto de algum que me procurasse
com esse nome, nessa hora e nesse lugar.
        Era a telefonista do hotel com uma telefonema interurbano.
Em um segundo percebi que ningum, alm de Elena e
Franquie, sabia onde estvamos, e no era provvel que algum
dos dois me chamasse dessa forma, e a essa hora da madrugada,
e com o truque de que fosse um telefonema interurbano, a no
ser que se tratasse de uma questo de vida ou morte. Portanto,
decidi atender. Uma mulher falando ingls me soltou uma rajada
incontrolvel de pargrafos num tom familiar, dizendo
darling, dizendo sweetheart, falando honey, e quando consegui
abrir uma brecha para faz-la entender que eu no falava ingls,
bateu o telefone com um suspiro muito doce: shit. Foram inteis
as averiguaes que fiz com a telefonista do hotel, a no
ser para comprovar que havia dois outros hspedes com nomes
parecidos ao do meu passaporte falso. No pude dormir nem
um minuto, e assim que Elena entrou, s sete da manh, fomos
para outro hotel.
        O        segundo susto foi no ranoso hotel Carrera - de cujas
janelas frontais se v por completo o Palcio de la Moneda -
e foi um susto retrospectivo. Efetivamente, poucos dias depois
de termos dormido ali, dois jovens fazendo-se passar por um
casal em lua-de-mel ocuparam o quarto vizinho ao que tnhamos
usado e armaram num trip de fotgrafo uma bazuca equipada
com um sistema de ao retardada, dirigida contra o escritrio
de Pinochet. A concepo e o mecanismo da ao eram perfeitos,
e Pinochet estava em seu escritrio na hora prevista, mas
as pernas do trip se abriram com o impulso do disparo e o
projtil sem rumo explodiu dentro do quarto.


Os cinco pontos cardeais de Santiago

        Na sexta-feira da nossa segunda semana, Franquie e eu
decidimos iniciar no dia seguinte as viagens de automvel pelo
interior, comeando por Concepcin. Naquele momento faltava
fazer, em Santiago, entrevistas com dirigentes legais e clandestinos,
e filmar o interior do Palcio de La Moneda. As entrevistas
exigiam uma preparao complicada, e Elena cuidava
disso com uma eficincia admirvel. A filmagem dentro do La
Moneda tinha sido aprovada, mas a autorizao oficial s seria
entregue na semana seguinte. Portanto, Franquie e eu dispnhamos
do tempo necessrio para terminar o trabalho no interior
do pas. Com esse objetivo indicamos por telefone  equipe
francesa que regressasse a Santiago uma vez terminado seu programa
do norte, e pedimos  equipe holandesa que continuasse
com o programa do sui at Puerto Montt, e ali esperasse instrues.
Eu continuaria, como sempre, trabalhando com a equipe
italiana.
        Tal como estava previsto, aproveitaramos aquela sexta-feira
filmando ali mesmo nas ruas _ e comigo aparecendo _
para que os rgos da ditadura no pudessem negar depois que
eu tinha dirigido o filme dentro do Chile. Fizemos isso em
cinco pontos caractersticos de Santiago: o exterior de La Moneda,
o Parque Florestal, as pontes do rio Mapocho, o Monte
de San Cristbal e a igreja de San Francisco. Grazia tinha se
encarregado de localiz-los e estudar o deslocamento da cmara
nos dias anteriores, para no perder nenhum minuto, pois estava
decidido que s dedicaramos duas horas a cada lugar, ou
seja, dez horas no total. Eu chegaria uns quinze minutos depois
da equipe, e sem falar com nenhum de seus integrantes devia
me incorporar  vida do lugar, fazendo algumas indicaes de
direo j combinadas com Grazia.
        O        Palcio de La Moneda ocupa um quarteiro completo,
mas suas duas fachadas principais so a da Praa Bulnes,, na
Alameda onde est o Ministrio de Relaes Exteriores, e o da
Praa da Constituio, onde est a Presidncia da Repblica.
Depois da destruio do edifcio pelo bombardeio areo do dia
11 de setembro, os escombros das dependncias presidenciais
ficaram abandonados. O governo instalou-se nos antigos escritrios
da Comisso das Naes Unidas para o Comrcio e o Desenvolvimento
(UNCTAD), um edifcio de vinte andares que
o governo militar ansioso por legitimidade batizou com o nome
do prcer liberal Diego Portales. Ali permaneceu at uns dez
anos atrs, quando terminaram as longas obras de restaurao
do La Moneda, que incluram a construo adicional de uma
verdadeira fortaleza subterrnea: pores blindados, passagens
secretas, portas de sada, acessos de emergncia a um estacionamento
oficial que l existia antes, debaixo da rua. Mesmo
assim, em Santiago fala-se que as manias formalistas de Pinochet
foram prejudicadas pela impossibilidade de colocar em
si mesmo a faixa de O'Higgins, smbolo do poder legtimo no
Chile, que foi destruda no bombardeio do palcio. Em algumas
ocasies, um corteso do poder militar tratou de divulgar
        a fbula de que a faixa tinha sido salva das chamas pelos primeiros
oficiais que ocuparam La Moneda, mas era uma pretenso
ingnua que no prosperou.
        Um pouco antes das nove da manh, a equipe italiana
tinha filmado a fachada do lado da Alameda, frente ao monumento
do Pai da Ptria, Bernardo O'Higgins, onde existe agora
uma chama perptua de gs propano: "a chama da liberdade".
        Depois, foram filmar a outra fachada, onde so mais visveis os
carabineros de elite da Guarda do Palcio, os mais garbosos e
altivos, que fazem a cerimnia de revezamento duas vezes por
dia sem tantos curiosos do mundo mas com tantos delrios de
grandeza como no palcio de Buckingham. Tambm desse lado
 mais severa a vigilncia. Portanto, quando os carabineros
viram a equipe italiana preparando-se para filmar, se apressaram
para exigir a autorizao escrita que j tinha sido pedida
no lado da Alameda. Era infalvel: nem bem aparecia a cmara
em qualquer lugar da cidade, aparecia tambm um carabinero
para pedir a autorizao por escrito.
        Eu cheguei nesse momento. Ugo, o cinegrafista, um rapaz
simptico e decidido que estava se divertindo feito um japons
com a aventura contnua da filmagem, tinha dado um jeito
para mostrar sua identidade com uma mo enquanto continuava
filmando o carabinero com a outra, sem que este percebesse.
Franquie tinha me deixado a quatro quarteires dali, e
me apanharia quatro quarteires adiante, quinze minutos mais
tarde. Era uma manh fria e enevoada, tpica de nossos outonos
prematuros, e eu tremia de frio apesar do sobretudo invernal.
Tinha caminhado depressa os quatro quarteires para me
esquentar um pouco, atravs da multido apressada, e continuei
sem parar dois quarteires a mais para dar tempo para que a
equipe se identificasse. Quando regressei, filmaram minha passagem
na frente do La Moneda sem nenhum contratempo. No
fim dos quinze minutos, a equipe recolheu suas tralhas e foi
rumo ao objetivo seguinte. Eu alcancei o automvel de Franquie
na Rua Riquelme, na frente da estao de metr Los Hroes,
e samos cantando pneus.
        O        Parque Florestal exigiu menos tempo que o previsto,
porque ao v-lo de novo compreendi que meu interesse por ele
era na verdade subjetivo. Na realidade,  um lugar muito bonito
e um ponto caracterstico de Santiago, principalmente sob
os ventos de folhas amarelas daquela sexta-feira sonolenta. Mas
o que mais me atraa era a procura de minhas nostalgias. Ali
estava a Faculdade de Belas Artes, em cujas escadarias montei
minha primeira pea de teatro, nem bem havia chegado de
minha cidade. Mais tarde, sendo j um diretor de cinema desabrochando,
tinha que atravessar o parque quase todos os dias
para voltar para casa, e a luz de suas rvores frondosas ao entardecer
ficou para sempre, em mim, misturada  lembrana de
meus primeiros filmes. No havia muito mais para dizer. Bastou-nos
estabelecer uma curta caminhada minha atravs das
rvores que se despojavam de suas folhas com um sussurro de
chuva, e continuei caminhando at o centro comercial, onde
Franquie me esperava.
        O        tempo continuava difano, frio, e a cordilheira estava
ntida pela primeira vez desde a minha chegada. Santiago est
num vale entre montanhas, e tudo  visto atravs da bruma
da poluio. Havia muita gente s onze da manh na Rua
Estado, como de costume, e j estavam entrando na primeira
sesso dos cinemas. No Rex anunciavam Amadeus, de Milos
Forman, que eu queria ver de qualquer jeito, e tive que fazer
        um grande esforo para no entrar.


E na virada da esquina: minha sogra!

        Nos dias anteriores, enquanto filmvamos, tinha visto
passar muitos conhecidos: jornalistas, pessoal da poltica, gente
da cultura. No recordo de nenhum que tenha nem ao menos
me olhado, e isso me deixava mais confiante. Mas naquela sexta-feira
aconteceu o que cedo ou tarde teria que acontecer. Na
minha frente, caminhando na minha direo, vi uma mulher
distinta, com um vestido de linho creme de duas peas, sem
sobretudo, quase como que no vero, e que eu s reconheci
quando estava a menos de trs metros. Era Leo, minha sogra.
Tnhamos estado juntos seis meses antes na Espanha, e alm
do que ela me conhecia tanto, que era impossvel que no me
identificasse a to curta distncia. Pensei em dar a volta, mas
ento recordei que tinham me advertido para controlar esse
impulso natural, pois muitos clandestinos que passaram de frente
sem problemas, foram reconhecidos pelas costas. Tinha bastante
confiana em minha sogra para no me alarmar se me
descobrisse, mas ela no estava sozinha. Ia de braos dados com
uma irm, a tia Mina, que tambm me conhecia, e iam conversando
em voz baixa, quase cochichando. Tampouco isso teria
me preocupado se as circunstncias fossem diferentes, mas
temia a surpresa de ambas. No teria sido estranho se disparassem
gritos de plena emoo no meio da rua: "Miguel, filhote,
voc entrou, que maravilha!" ou qualquer coisa parecida. Alm
disso, era perigoso para elas saber do segredo de que eu estava
clandestino no Chile.
        Frente  impossibilidade de fazer qualquer coisa optei por
continuar em frente, olhando-a com a maior intensidade de
que fui capaz, para poder control-la imediatamente caso me
visse. Mal e mal levantou a vista ao passar, enfrentou meus
olhos fixos e aterrorizados sem deixar de falar com a tia Mina,
me olhou sem me ver, e -passamos to perto que senti seu perfume,
e vi seus olhos belos e doces, e escutei bem claro o que
ela dizia: "Os filhos do mais trabalho quando so grandes".
E seguiu em frente.
        H pouco tempo contei-lhe este encontro, por telefone,
de Madri, e ela ficou atnita: no registrou-o em sua conscincia.
Para mim foi uma casualidade perturbadora. Atordoado
pela impresso, procurei um lugar para pensar, e me meti num
pequeno cinema onde estava passando A Ilha da Felicidade, um
filme italiano que no precisava de mais nada para ser pornogrfico.
Fiquei l dentro uns dez minutos. Vi homens esbeltos
e mulheres muito belas e alegres que se atiravam no mar num
dia deslumbrante em algum canto do paraso. Nem tentei me
concentrar. Mas a escurido me deu tempo para recompor a
minha expresso, e s ento compreendi at que ponto tinham
sido rotineiros e plcidos meus dias anteriores. s onze e quinze,
Franquie me apanhou na esquina da Estado com Alameda,
e me levou ao prximo ponto de filmagem: as pontes do rio
Mapocho.
        O rio Mapocho atravessa a cidade por um leito de cimento, com
pontes muito bonitas, cujas magnficas estruturas de
ferro as mantm a salvo dos terremotos. Em tempos de seca,
como era o caso, seu caudal se reduz a um fio de barro lquido,
que na parte central parece estancado entre barracas miserveis.
Em tempos de chuva o leito transborda com as cheias que descem
das cordilheiras, e a barracas ficam flutuando como barquinhos
ao lu num mar de lodo. Nos meses seguintes ao golpe
militar, o rio Mapocho ficou conhecido no mundo inteiro pelos
cadveres maltratados que suas guas arrastavam, depois dos
assaltos noturnos das patrulhas militares aos bairros marginais:
as famosas poblaciones de Santiago. Mas h alguns anos, e durante
o ano inteiro, o drama do Mapocho so as turbas famlicas
que disputam com os ces e os urubus as sobras de comida
atiradas ao curso do rio nos mercados populares. E o reverso
do milagre chileno, patrocinado pela Junta Militar sob a inspirao
celestial da Escola de Chicago.
        O        Chile no foi apenas um pas modesto at o governo
de Allende, mas sua prpria burguesia conservadora se orgulhava
da austeridade como uma virtude nacional. O que a Junta
4

Militar fez para dar uma aparncia impressionante de prosperidade
imediata foi desnacionalizar tudo o que Allende tinha
nacionalizado, e vender o pas ao capital privado e s corporaes
multinacionais. O resultado foi uma exploso de artigos
de luxo, deslumbrantes e inteis, e de obras pi5blicas ornamentais
que fomentavam a iluso de uma bonana espetacular.
        Num nico qinqnio foram importadas mais coisas que
nos duzentos anos anteriores, com crditos em dlares avalizados
pelo Banco Nacional com o dinheiro das desnacionalizaes.
A cumplicidade dos Estados Unidos e dos organismos internacionais
de crdito fez o resto. Mas a realidade mostrou
suas presas na hora de pagar: seis ou sete anos de miragens
desmoronaram em um. A dvida externa do Chile, que no ltimo
ano de Allende era de quatro bilhes de dlares, agora 
de quase vinte e trs bilhes. Basta dar um passeio pelos mercados
populares do rio Mapocho para ver qual foi o custo social
desses dezenove bilhes de dlares de desperdcio. O milagre
militar fez muito mais ricos uns poucos ricos, e fez muito mais
pobres o resto dos chilenos.
A ponte que viu tudo

        Porm, naquela feira de vida e de morte, a ponte Recoleta
sobre o rio Mapocho  uma amante neutra: serve ao mesmo
tempo aos mercados e ao cemitrio. Durante o dia, os enterros
tm de abrir passagem entre a multido. De noite, quando no
h toque de recolher, aquele  o caminho obrigatrio para os
clubes de tango, guaritas nostlgicas de subrbio amargo onde
os coveiros so campees de dana. Mas o que mais me chamou
a ateno naquela sexta-feira, depois de tantos anos sem ver
estes santos lugares, foi a quantidade de jovens namorados que
passeavam abraados pela cintura nos terraos sobre o rio, beijando-se
entre os postos de flores luminosas para os mortos
das tumbas prximas, amando-se devagar e sem se preocupar
com o tempo incessante que escorria, impiedoso, por baixo das
pontes. S em Paris eu tinha visto, h muitos anos, tanto amor
pelas ruas. Em compensao, recordava de Santiago como uma
cidade de sentimentos pouco evidentes, e agora me encontrava
ali com um espetculo alentador que pouco a pouco tinha se
extinguido em Paris, e que eu acreditava que tinha desaparecido
do mundo. Ento recordei o que algum tinha me dito
naqueles dias em Madri: "O amor floresce em tempos de
peste
        Desde antes da Unidade Popular, os chilenos de terno
escuro e guarda-chuva, as mulheres dependuradas nas novidades
da Europa e os bebs vestidos de coelho em seus carrinhos,
tinham sido arrasados pelo vento renovador dos Beatles. Havia
uma tendncia definida da moda rumo  confuso dos sexos:
a unissex. As mulheres cortavam o cabelo quase a zero e disputavam
com os homens as calas de cadeiras estreitas e patas de
elefante, e os homens deixaram crescer o cabelo. Mas tudo isso
foi arrasado por sua vez pelo fanatismo hipcrita da ditadura.
Uma gerao inteira cortou o cabelo antes que as patrulhas militares
o cortassem a baioneta, como tantas vezes fizeram nos
primeiros dias do golpe de quartel.
        At aquela sexta-feira nas pontes do Mapocho eu no
tinha percebido que a juventude tinha tornado a mudar. A
cidade estava tomada por uma gerao posterior  minha. As
crianas que tinham menos de dez anos quando eu sa, mal
e mal capazes de apreciar nossa catstrofe em toda sua magnitude,
andavam agora pelos vinte e dois anos. Mais tarde encontraramos
novas evidncias da forma com que essa gerao que
se ama  luz pblica tinha sabido preservar-se dos convites
constantes da seduo. So eles que esto impondo seus gostos,
seu modo de viver, suas concepes originais do amor, das
artes, da poltica, em meio  exasperao senil da ditadura. No
h represso que os detenha. A msica que se ouve a todo volume
por todo lado - at nos nibus blindados dos carabineros,
que a escutam sem saber o que escutam -, so as canes
dos cubanos Silvio Rodrguez e Pablo Milans. As crianas
que estavam na escola primria nos anos de Salvador Allende,
so agora os comandantes da resistncia. Isto foi para mim uma
comprovao reveladora e ao mesmo tempo inquietante, e pela
primeira vez me perguntei se na verdade serviria para alguma
coisa minha safra de nostalgia.
        A dvida me deu novos mpetos. S para cumprir com
o programa do dia fiz uma passagem rpida pelo morro de San
Cristbal, e depois pela igreja de San Francisco, cuja pedra
tinha-se tornado dourada ao entardecer. Depois pedi a Franquie
que tirasse do hotel minha mala e tornasse a me apanhar dentro
de trs horas na sada do cine Rex, onde entrei para ver Amadeus.
Pedi alm disso para dizer a Elena que amos desaparecer
por trs dias. Nada mais. Ia contra as normas estabelecidas,
pois Elena devia conhecer meu paradeiro o tempo inteiro, mas
no pude evitar. Franquie e eu amos a Concepcin sem dizer
a ningum, pelo tempo que fosse preciso, num trem que saa
s onze da noite.






55







-5-
UM HOMEM EM CHAMAS
NA FRENTE DA CATEDRAL



        Foi uma inspirao sbita, embora tivesse um fundamento
racional indiscutvel. Eu achava que o trem era o meio mais
seguro de viajar dentro do Chile, sem os controles que  preciso
enfrentar nos aeroportos ou nas estradas. E principalmente porque
se aproveitam as noites, que eram inteis na cidade por
causa do toque de recolher. Franquie no estava muito convencido,
pois sabia que os trens so o meio de transporte mais
vigiado. Mas eu alegava que por isso mesmo so mais seguros.
Nenhum policial vai imaginar que um clandestino suba em um
trem vigiado. Franquie, ao contrrio, achava que a polcia sabe
que os clandestinos viajam em trens, porque pensam que os
lugares mais seguros so os mais vigiados. Achava, alm disso,
que um publicitrio rico, com uma longa experincia e grandes
negcios na Europa, est disposto a viajar nos estupendos trens
europeus mas no nos pobres trens do interior do Chile. Entretanto,
foi convencido por meu argumento de que o avio
para Concepcin no  o mais recomendvel para atender um
compromisso ou um plano de trabalho, porque nunca se sabe
se a neblina permitir que ele aterrisse. A verdade, c para ns,
 que eu teria preferido o trem de qualquer jeito, por causa de
meu medo incurvel de avio.
Portanto, s onze da noite tomamos o trem na Estao
Central, cuja estrutura de ferro tem a mesma beleza incompreensvel
da torre Eiffel, e nos instalamos numa cabine confortvel
e limpa do vago dormitrio. Eu morria de fome, pois
a nica coisa que tinha comido desde o caf da manh tinham
sido duas barras de chocolate que me venderam no cinema enquanto
o jovem Mozart dava saltos de acrobata na frente do
imperador da ustria. O inspetor informou-nos que s poderamos
comer no vago-restaurante, e que este estava isolado
do nosso por disposio regulamentar, mas ele mesmo nos deu
a soluo: antes que o trem partisse deveramos ir ao restaurante,
comer do jeito que desse, e regressar ao dormitrio uma
hora depois, durante a parada em Rancgua. Fizemos isso, a
todo vapor, porque j tinha soado o toque de recolher, e os
inspetores do trem nos aoitavam aos gritos: "Depressa, cavalheiros,
depressa, que estamos violando a lei". S que os guardas
da estao de Rancgua, sonolentos e mortos de frio, no
se importavam nem um pouco por aquela violao consentida
e inevitvel da lei marcial.
        Era uma estao gelada e vazia, sem vivalma, coberta por
uma neblina fantasmagrica. Idntica s estaes dos filmes
de deportados da Alemanha nazista. De repente, enquanto os
inspetores nos apressavam, passou voando por ns um garom
do restaurante, com a clssica jaqueta branca, levando na palma
da mo um prato de arroz com um ovo frito em cima. Correu
uns cinqenta metros numa velocidade inconcebvel sem que
o prato perdesse seu equilbrio mgico, estendeu-o pela janela
do ltimo vago do trem a algum que sem dvida tinha pago
por isso, e antes que ns chegssemos ao nosso vago j tinha
regressado ao carro-restaurante.
        Percorremos em absoluto silncio os quase quinhentos
quilmetros at Concepcin, como se o toque de recolher fosse
obrigatrio no apenas para os passageiros daquele trem sonmbulo,
mas tambm para todos os seres da natureza. s
vezes eu punha a cara na janela, e a nica coisa que conseguia
ver atravs da neblina eram estaes vazias, campos vazios, a
vasta noite de um pas desocupado. A nica prova da existncia
do homem sobre a terra eram as interminveis cercas de arame
farpado ao longo dos trilhos, e nada atrs das cercas, nem gente,
nem flores, nem animais: nada. Lembrei-me de Neruda: Em
todas as partes po, arroz, mas, no Chile arame, arame, arame.
As sete da manh, quando ainda faltava muita terra para
que se acabasse o arame, chegamos a Concepcin.
        Enquanto decidamos o prximo passo, pensamos em buscar
um lugar onde fazer a barba. Para mim no havia problemas.
Teria aproveitado o pretexto para deixar a barba crescer
uma vez mais. O problema era a cara de foragidos que teramos
para os carabineros, numa cidade que est na conscincia
de todos os chilenos como cenrio de grandes lutas sociais.
Ali nasceu o movimento estudantil dos anos sessenta, ali Salvador
Allende encontrou o apoio decisivo para sua eleio, foi
ali que o presidente Gabriel Gonzlez Videla iniciou a represso
sangrenta de 1946, pouco antes de fundar o campo de
concentrao de Pisgua, onde foi treinado nas artes do terror
e da morte um jovem oficial chamado Augusto Pinochet.


Flores eternas na praa Sebastin Acevedo
4


        Do txi que nos levava ao centro da cidade, atravs de
uma nvoa densa e gelada, vimos a cruz solitria no trio da
Catedral, e o ramo de flores perptuas mantidas por mos annimas.
Sebastin Acevedo, um humilde mineiro do carvo, tinha
tocado fogo no prprio corpo neste lugar, dois anos antes,
depois de tentar sem resultado que algum interviesse para
que a Central Nacional de Informao (CNI) parasse de torturar
seu filho de vinte e dois anos e sua filha, detidos por porte
ilegal de armas.
Sebastin Acevedo no fez uma splica e sim uma advertencia.
Como o arcebispo estava viajando, falou com funcionrios do
arcebispado, falou com os jornalistas mais influentes,
falou com os lderes dos partidos polticos, falou com dirigentes
da indstria e do comrcio, falou com quem quis ouvi-lo,
inclusive com funcionrios do governo, e a todos disse a mesma
coisa: "Se no fizerem alguma coisa para impedir que continuem
torturando meus filhos, vou me empapar de gasolina e
tocar fogo, no trio da catedral". Alguns no acreditaram. Outros
no souberam o que fazer. No dia marcado, Sebastin Acevedo
plantou-se no trio, jogou um balde de gasolina no corpo,
e advertiu a multido concentrada na rua que se algum passasse
de determinado ponto, tocaria fogo nas roupas. No
adiantaram as splicas, no adiantaram as ordens, no adiantaram
as ameaas. Tentando impedir a imolao, um carabinero
ultrapassou o lugar marcado, e Sebastin Acevedo se transformou numa fogueira humana.
        Viveu ainda sete horas, lcido e sem dor. A comoo pblica
foi to radical que a polcia viu-se obrigada a permitir
que sua filha o visitasse no hospital antes que ele morresse. Mas
os mdicos no quiseram que ela o visse em seu estado de
horror, e s lhe permitiram falar com o pai atravs de um interfone.
"Como posso saber se voc  Candelria?", perguntou
Sebastin Acevedo ao ouvir sua voz. Ela lhe disse ento o diminutivo
carinhoso com o qual a chamava quando ela era menina.
Os dois irmos foram tirados das cmaras de tortura, tal
como o pai mrtir tinha exigido com sua vida, e postos  disposio
dos tribunais ordinrios. Desde ento, os habitantes
de Concepcin tm tambm um nome secreto para o lugar do
sacrifcio: praa Sebastin Acevedo.


Como  difcil fazer a barba em Concepcin!

        Aparecer neste bastio histrico s sete da manh, disfarados
de burgueses mas sem ter feito a barba, era um risco
que no valia a pena. Alm disso, qualquer um sabia que um
executivo de publicidade destes tempos, junto com o gravador
em miniatura para recordar suas idias, leva na maleta um barbeador
eltrico para fazer a barba nos avies, nos trens, no automvel,
antes de chegar a um encontro de negcios. Porm,
talvez no houvesse risco maior em Concepcin do que procurar
quem me barbeasse num sbado qualquer s sete da manh. A
primeira tentativa foi feita na nica barbearia aberta a essa
hora perto da Plaza de Armas, que tinha um letreiro na porta:
Unissex. Uma moa de uns vinte anos estava varrendo o salo,
ainda no meio do sono, e um homem quase to jovem quanto
ela ajeitava os frascos no toucador.
-        Quiero rasurarme - disse.
        -        No - disse o homem -, aqui no fazemos isso.
        -        E onde fazem esse trabalho?
        -        V em frente - disse. - H muitas barbearias.
        Caminhei um quarteiro, at onde Franquie tinha ficado
para alugar um automvel, e vi que estava se identificando para
dois carabineros. Exigiram tambm a minha identificao, mas
no houve nenhum problema. Ao contrrio. Enquanto Franquie
alugava o automvel, um dos carabzneros me acompanhou
duas quadras at outra barbearia que estava abrindo as portas,
e despediu-se com um aperto de mo.
        Tambm ali havia o letreiro na porta: Unissex. Tal e qual
no primeiro salo, neste havia um homem de uns trinta e cinco
anos, e uma moa mais jovem. O homem me perguntou o que
eu queria. Disse a ele: "rasurarme". Os dois me olharam, surpreendidos.
        -        No, cavalheiro, aqui no fazemos esse servio -
disse ele.
        -        Aqui, somos unissex - disse a moa.
        -        Bem - disse eu - por mais unissex que sejam, sabero
como rasurar algum.
        -        No, cavalheiro - disse ele -, aqui no.
        Os dois viraram as costas. Continuei caminhando pelas
ruas desoladas, atravs da neblina opressiva, e no s me surpreendi
com a quantidade de barbearias unissex que havia em
Concepcin, como tambm com a unanimidade de seus hbitos:
em nenhum quiseram me rasurar. Estava perdido na nvoa,
quando um garoto da rua me perguntou:
        -        Procurando alguma coisa, cavalheiro?
        -        Sim - disse -, estou procurando uma barbearia que
e
no        seja unissex, mas s de homens, como as de antigamente.
Ento me levou a uma barbearia tradicional com o cilindro
de espiral vermelho e branco na porta e poltronas giratrias
das do meu tempo. Havia dois ancios com aventais sujos atendendo
um cliente s. Um cortava seu cabelo e o outro ia sacudindo
com uma escovinha de pelcia os fios que caam na
cara e nos ombros do cliente. L dentro cheirava a linimento,
ou lcool mentolado, ou botica antiga, e s ento percebi que
era desse cheiro que eu tinha sentido falta nas barbearias anteriores.
O cheiro de minha infncia.
-        Quisiera rasurarme - disse.
        Os dois - e o cliente - me olharam surpreendidos. O
ancio da escovinha me perguntou o que sem dvida estavam
pensando os trs:
        -        De onde o senhor ?
        -        Chileno - disse, sem pensar, e me apressei em corrigir
-: mas sou uruguaio.
        Eles no notaram que a correo era pior que o erro, mas
me izeram perceber que no Chile no se dizia rasurar h muitos
anos. Para barbear, dizia-se ajeitar. Talvez por isso nas
barbearias de jovens unissex no entenderam meu idioma fora
de uso, de chileno velho. Nesta, em compensao, se animaram
com a chegada de algum que falava como em seus bons tempos,
e o barbeiro que estava livre me sentou na poltrona, colocou-me
um lenol no pescoo,  antiga, e abriu uma navalha
enferrujada. Tinha pelo menos setenta anos mal vividos, e era
alto e fofo, com a cabea muita branca, e ele mesmo tinha uma
barba de trs dias.
        -        Vamos fazer a barba com gua quente ou com gua
fria? - me perguntou.
        Mal e mal podia segurar a navalha com a mo trmula.
        -        Com gua quente,  claro - disse eu.
        -        Pois fomos para o caralho, cavalheiro - disse ele
-,        porque aqui no temos gua quente, s aginha fria.
        Ento regressei  primeira barbearia unissex, e quando
disse que queria ajeitarme - e no rasurarme - me atenderam
imediatamente, mas com a condio de que eu tambm
cortasse o cabelo. Assim que aceitei, o jovem e a moa corrigiram
a atitude negligente e iniciaram uma longa cerimnia profissional.
Ela me ps uma toalha no pescoo, lavou-me a cabea
com gua fria - pois ali tampouco havia gua quente -
e me perguntou se queria a frmula de mscara nmero trs,
nmero quatro ou nmero cinco, e se queria fazer um tratamento
para deter a calvcie. Eu seguia a conversa at que ela
parou de repente, quando estava secando a minha cara, e disse
para si mesma: "Que esquisito!". Eu abri os olhos sobressaltado:
"O qu?". Ela se confundiu mais que eu.
-        As sobrancelhas esto depiladas!
        Aborrecido pela sua descoberta, decidi fazer a piada mais
brutal que me ocorreu, e perguntei-lhe com um olhar lnguido:
-        Ento voc tem preconceitos contra bichas?
        Ela ficou vermelha at a raiz do cabelo, e negou com a
cabea. Depois o barbeiro tomou conta de mim, e apesar do
cuidado e da preciso de minhas indicaes cortou alm da conta,
penteou-me de outro modo, e terminou por me deixar outra
vez transformado em Miguel Littn. Era lgico, porque o maquiador
de Paris tinha contrariado de propsito a tendncia
natural de meu cabelo, e o barbeiro de Concepcin no fez
outra coisa a no ser devolver tudo a seu lugar. No me preocupei,
porque era fcil pentear-me outra vez do jeito do meu
outro eu, como acabei fazendo. No sem um grande esforo
moral,  verdade, contra meu desejo de ser outra vez eu mesmo
em uma remota cidade de neblina, onde, de qualquer modo,
ningum iria me reconhecer. Terminado o corte, a moa me
levou para os fundos da barbearia, e com todo tipo de reservas,
como se fosse um ato proibido, ligou um barbeador eltrico
na frente de um espelho e estendeu-o para que eu mesmo fizesse
a barba. Sem necessidade de gua quente, felizmente.


Um paraso de amor no inferno
9
        Franquie tinha alugado o automvel. Tomamos o caf da
manh num bar - uma xcara de caf frio, j que ali tampouco
havia gua quente e tocamos para as minas de carvo de Lota
e Schwager pela ponte grande do Bo-Bo, o rio mais caudaloso
do Chile, cujas guas de metal sonolento mal e mal apareciam
no meio da neblina. No sculo passado, o escritor Baldomero
Lillo descreveu as minas e a vida dos mineiros com todos os
seus detalhes, e seu relato ainda parece atual.  como estar no
Pas de Gales h cem anos, tanto pela neblina saturada de
fuligem como pelas condies de trabalho, que continuam sendo
anteriores  revoluo industrial.
        Havia trs barreiras policiais antes de chegar. A mais difcil,
como tnhamos previsto, foi a primeira. Por isso gastamos
ali quase toda a nossa artilharia verbal quando nos perguntaram
o que amos fazer em Lota e Schwager. Eu mesmo fiquei
assombrado com a fluncia da minha resposta. Disse que tnhamos
vindo conhecer o parque, que  um dos mais bonitos da
Amrica por causa de suas araucrias ancis e gigantescas, e
tambm pela raridade de suas tantas esttuas rodeadas de paves
reais agourentos e cisnes de pescoo negro. Nosso propsito
era usar o lugar para um filme de publicidade que divulgasse
pelo mundo inteiro o prestgio de Araucria, um novo
perfume batizado com esse nome em homenagem quele lugar
idlico.
        No h policial chileno que resista a uma explicao to
longa, e menos ainda se  feita com uma exaltao arregalada
das belezas do pas. Deram-nos as boas-vindas, e devem ter
anunciado nossa passagem ao segundo posto de controle, pois
ali no nos pediram identificao, mas revistaram as maletas e
o automvel. A nica coisa que lhes interessou foi a cmara
Super-8 - embora no fosse profissional -, porque era preciso
uma autorizao por escrito para filmar nas minas. Esclarecemos
que s queramos chegar at o parque das esttuas e dos
cisnes, no alto da montanha, e tentei arrematar com uma displicncia
de aristocrata.
        -        No nos interessam os pobres - disse.
        Examinando sem muito interesse cada coisa que encontrava,
um dos carabineros replicou sem me olhar:
        -        Por aqui, somos todos pobres.
        Ficaram satisfeitos com a revista. Meia hora depois, no
final de uma ladeira estreita e escarpada, passamos o terceiro
posto de controle sem nenhuma formalidade e chegamos ao
parque. Um lugar delirante, que Dom Matas Cousifio, o f amoso
produtor de vinhos, mandou construir para a mulher que
amava. Trouxe rvores fabulosas de todos os cantos do Chile
para agrad-la. Trouxe animais mitolgicos, esttuas de deusas
improvveis que simbolizam os diferentes estados da alma: a
alegria, a tristeza, a nostalgia, o amor. No fundo h um palcio
de conto de fadas, de cujas varandas se v o oceano Pacfico
at o outro lado do mundo.

        Passamos ali a manh inteira filmando com a Super-8 os
lugares que a equipe iria filmar depois com as devidas autorizaes.
Desde nossas primeiras rodagens tinha se aproximado
de ns um vigia para nos dizer que estavam proibidas at
mesmo as fotografias simples. Repetimos para ele a histria
do filme de publicidade para o mundo inteiro, mas ele se agarrava
nas suas ordens. Mesmo assim, ofereceu-se para acompanhar-nos at l
embaixo, onde estavam as minas, para que
pedssemos autorizao a seus superiores.

        -        No vamos filmar mais - disse a ele. - Se quiser,
venha com a gente para que fique mais tranqilo.

        Aceitou, e voltamos a percorrer o parque com ele. Era
jovem e com uma cara muito triste. Franquie mantinha a conversa viva,
pois eu preferia falar apenas o indispensvel com
meu mau sotaque uruguaio. Em certo momento o vigia sentiu
vontade de fumar, e demos a ele todos os nossos cigarros. Ento
nos deixou sozinhos, e continuamos filmando o que achamos
necessrio. No s l em cima, no parque, mas tambm embaixo,
no exterior das minas. Estabelecemos os pontos que me
interessavam, os ngulos, as lentes, as distncias, o espao completo
do grande parque, e depois a misria de baixo, onde
vivem misturados os mineiros e os pescadores.  uma realidade
maniquesta e quase inverossmil, mas  a realidade.


O bar onde as gaivotas vo dormir

        Quando descemos, passado o meio-dia, estavam saindo as
lanchas que se aventuram todos os dias at a vizinha ilha de
Santa Maria por um mar horrendo e perigoso, de enormes
ondas negras, com famlias inteiras carregadas de objetos usados
e coisas e animais para comer. As minas de carvo esto
em tneis profundos que entram pelo fundo do mar, onde trabalham
milhares de operrios durante o dia inteiro em condies
miserveis. Fora, ao redor das entradas dos tneis, centenas
de homens e mulheres com seus filhos cavam a terra como
topeiras, tirando com as unhas os resduos das minas. L em
cima, no parque, o ar  puro e difano por causa do oxignio
das rvores. Embaixo aspira-se o p de carvo na neblina, que
di na respirao e se sedimenta nos brnquios. Visto do alto,
o mar  de uma beleza inimaginvel. L embaixo,  turvo e
fragoroso.
        Esta era uma fortaleza poltica e emocional de Salvador
Allende. Em 1958 houve ali o que na poca ficou sendo conhecida
como "a marcha do carvo", quando os mineiros cruzaram
a ponte do Bo-Bo numa multido compacta, escura, silenciosa,
que ocupou a cidade de Concepcin com bandeiras e cartazes,
e com uma determinao de luta que ps o governo em
xeque. O episdio foi registrado no filme Banderas dei Puebio,
do chileno Srgio Bravo, e  um dos mais emocionantes
documentrios do cinema do Chile. Allende estava ali, e creio
que foi ento que teve a certeza decisiva do apoio de um povo
inteiro. Depois, quando foi presidente, uma de suas primeiras
viagens foi para dialogar com os mineiros na praa de Lota.
        Eu estava em sua comitiva. Chamou-me a ateno que um
homem como ele, que sempre prezou sua vitalidade juvenil aos
sessenta anos, dissesse aquele dia algo que lhe saiu das entranhas:
"J passei a idade matutina, j sou quase um ancio".
Os mineiros pequeninos, maltratados, hermticos, curtidos de
promessas descumpridas durante tantos anos, conversaram com
ele sem reservas e se constituram num bastio definitivo para
sua vitria. Uma das primeiras medidas que ele tomou no governo,
tal como tinha prometido naquela tarde em Lota e
Schwager, foi a nacionalizao das minas. Uma das primeiras
medidas de Pinochet foi privatiz-las outra vez, como fez com
quase tudo: os cemitrios, os trens, os portos, e at o recolhimento
do lixo.
        Terminado o plano de filmagem nas minas, s quatro da
tarde, e sem que nenhuma autoridade militar ou civil tivesse
aparecido, regressamos a Concepcin pelo caminho de Talcahuano.
Era difcil avanar pela quantidade de mineiros que
regressavam s suas casas entre a neblina, arrastando os carrinhos
com pedaos de carvo resgatados dos desperdcios das
minas. Homens minsculos fantasmagricos, mulheres midas
e fortes, carregados de enormes sacos de carvo, criaturas de
pesadelo que surgiam de repente das trevas, mal iluminadas
pelas luzes do carro.
        Talcahuano, sede da escola naval de suboficiais,  o principal
porto militar do Chile e seu estaleiro mais ativo. Ficou
clebre nos dias seguintes ao golpe militar pelo triste privilgio
de ser o ponto de concentrao obrigatria para os prisioneiros
polticos que seriam levados ao inferno da Ilha
Dawson. Nas ruas, misturados aos mineiros em farrapos, vem-se
os jovens cadetes de uniformes nevados, e no  fcil respirar
o ar pervertido pelo tufo terrvel das fbricas de farinha de
peixe, o alcatro dos estaleiros, a podrido do mar.
        Ao contrrio do que supnhamos, no havia nenhum
controle militar para viajantes. A maioria das casas estava as
escuras, e as poucas luzes nas janelas pareciam candeeiros de
outra poca. No tnhamos comido nada desde o caf gelado
da manh, e portanto o encontro inesperado de um restaurante
iluminado foi como uma apario de fbula. Ainda mais quando
percebemos que estava cheio de gaivotas que entravam pela
varanda que dava para o mar. Nunca tinha visto tantas, nem
nunca as tinha visto surgir da escurido voando sobre as cabeas
de clientes impassveis, voando como se estivessem cegas,
ou atordoadas, batendo em todas as partes escandalosamente.
Comemos o que, na verdade, foi a primeira refeio do dia:
uma espcie de caf da manh na hora do jantar, com esses
mariscos pr-histricos do Chile que tm o gosto de mares
territoriais, profundos e gelados, e depois regressamos a Concepcin.
Apanhamos o trem para Santiago quando ele j comeava
a rodar, porque a loja onde havamos alugado o carro
estava fechada, e perdemos quase quatro horas procurando a
quem devolv-lo.

68

* * *



-6-
DOIS MORTOS QUE NUNCA MORREM:
ALLENDE E NERUDA



        As poblaciones, enormes bairros marginais nas maiores
cidades do Chile, so, de certo modo, territrios liberados _
como a casbah das cidades rabes _, cujos habitantes curtidos
pela pobreza desenvolveram uma assombrosa cultura de labirinto.
A polcia e o exrcito preferem no se arriscar, antes de
pensar mais de duas vezes, por aquelas colmias de pobres
onde um elefante pode desaparecer sem deixar rastros, e onde
tm de enfrentar formas de resistncia originais e inspiradas,
que escapam aos mtodos convencionais da represso. Essa
condio histrica converteu as poblaciones em plos ativos
em definies eleitorais durante os regimes democrticos, e
foram sempre uma dor de cabea para os governos. Para ns,
foram decisivas para estabelecer, em termos de depoimento
cinematogrfico, qual o estado de nimo popular em relao 
ditadura, e at que ponto se conserva viva a memria de Salvador
Allende.
        Nossa primeira surpresa foi comprovar que os grandes
nomes dos dirigentes no exlio no dizem muita coisa s novas
geraes que hoje mantm a ditadura em xeque. So os protagonistas
de uma lenda gloriosa que no tem muito a ver com
a realidade atual. Embora parea uma contradio, este  o
mais grave fracasso do regime militar. No princpio de seu
governo, o general Pinochet proclamou sua vontade de permanecer
no poder at apagar da memria das novas geraes o
ltimo vestgio do sistema democrtico. O que ele nunca imaginou
foi que seu prprio regime ia ser a vtima desse propsito
de extermnio. H pouco tempo, desesperado pela agressividade
dos rapazes que enfrentam com pedras na rua as tropas
de choque, que combatem com armas na clandestinidade, que
conspiram e fazem poltica para restabelecer um sistema que
muitos deles no conheceram, o general Pinochet gritou fora
de si que essa juventude faz o que faz porque no tem a menor
idia do que era a democracia no Chile.
        O nome de Salvador Allende  o que mantm o passado,
e o culto  sua memria alcana um tamanho mtico nas poblaciones.
Estas nos interessavam, acima de tudo, para conhecer
as condies em que vivem, o grau de conscincia frente 
ditadura, suas formas imaginativas de luta. Em todas nos responderam
com espontaneidade e franqueza, mas sempre em
relao  lembrana de Allende. Muitos depoimentos separados
pareciam um s: "Sempre votei nele, nunca em outro". Isto
se explica pelo fato de Allende ter sido tantas vezes candidato
ao longo de sua vida, que antes de ser eleito brincava dizendo
que seu epitfio seria: Aqui jaz Salvador Allende, futuro presidente
do Chile. Tinha sido candidato quatro vezes at ser
eleito, mas antes fora deputado e senador, cargo que continuou
conquistando em eleies sucessivas. Alm do mais, em sua
interminvel carreira parlamentar foi candidato pela maioria
das provncias pelos quatro cantos do pas, da fronteira peruana
at a Patagnia, de modo que no s conhecia a fundo cada centmetro
quadrado, sua gente, suas culturas diversas, suas amarguras
e seus sonhos, como tambm a populao inteira o conheceu
em carne e osso. Ao contrrio de tantos polticos que
s foram vistos nos jornais ou na televiso, ou escutados pelo
rdio, Allende fazia poltica dentro das casas, de casa em casa,
em contato direto e clido com as pessoas, como ele era na realidade:
um mdico de famlia. Sua compreenso do ser humano
unida ao instinto quase animal do ofcio poltico chegava a
suscitar sentimentos contraditrios nada fceis de serem resolvidos.
Sendo j presidente, um homem desfilou na frente dele
numa manifestao levando um cartaz inslito: Este  um governo
de merda, mas  o meu governo. Allende se levantou,
aplaudiu-o e desceu para apertar sua mo.
        Em nossa longa peregrinao pelo pas no encontramos
um nico lugar onde no houvesse um rastro dele. Sempre
havia algum que tinha apertado sua mo, ou que tinha um
filho que fosse afilhado dele, algum que tinha sido curado
por ele de uma tosse perniciosa com uma infuso de folhas de
quintal, ou que ele lhe tinha conseguido um emprego, ou o
derrotara numa partida de xadrez. Qualquer coisa que ele tenha
tocado  conservado como uma relquia. Quando menos espervamos,
algum apontava uma cadeira em melhor estado que
as outras: "Ele sentou-se a uma vez". Ou nos mostravam
qualquer bugiganga artesanal: "Foi presente dele". Uma moa
de dezenove anos, que j tinha um filho e estava grvida outra
vez, nos disse: "Eu sempre ensino a meu filho quem foi o
presidente, embora eu mal o tenha conhecido, porque tinha
nove anos quando ele se foi". Perguntamos que lembranas
conservava dele, e ela disse: "Eu estava com meu pai, e vi
que falava de um terrao agitando um leno branco". Numa
casa onde havia uma imagem da Virgem do Carmo, perguntamos
 dona se tinha sido allendista, e ela respondeu: "No
fui: sou". Ento tirou o quadro da Virgem, e atrs havia um
retrato de Allende.
        Durante seu governo eram vendidos nos mercados populares
uns pequenos bustos com sua imagem, e que agora so
venerados nas poblaciones com copos com flores e lmpadas
votivas. Sua lembrana se multiplica em todos, nos ancios que
votaram nele quatro vezes, nos que votaram trs vezes, nos que
o elegeram, nos meninos que s o conhecem pela tradio da
memria histrica. Vrias mulheres entrevistadas repetiram a
mesma frase: "O nico presidente que falou sobre os direitos
da mulher foi Allende". Quase nunca dizem seu nome: dizem
"O Presidente". Como se ainda fosse, como se tivesse sido o
nico, como se estivessem esperando que regresse. Mas o que
perdura na memria das poblaciones no  tanto a sua imagem,
e sim a grandeza de seu pensamento humanista. "No nos
importa a casa nem a comida, e sim que nos devolvam a dignidade",
diziam. E mais concretamente:
-        A nica coisa que queremos  o que nos tomaram:
        voz e voto.
Dois mortos vivos: Allende e Neruda

        O culto a Allende  mais sentido em Valparaso, o bulioso
porto onde ele nasceu, cresceu e se formou na vida poltica.
Foi ali, na casa de um sapateiro anarquista, que leu os primeiros
livros teoricos e contraiu para sempre a paixo ensimesmada
pelo xadrez. Seu av, Ramn Allende, foi fundador da primeira
escola leiga que existiu no Chile, e da primeira Loja Manica,
na qual o prprio Salvador Allende atingiu o grau supremo de
Grande Mestre. Sua primeira atuao memorvel foi durante
os "doze dias socialistas" do j mtico Marmaduque Grove,
cujo irmo casou-se com uma irm de Allende.
         estranho que a ditadura tenha enterrado Allende em
Valparaso, onde sem dvida ele gostaria de ser enterrado. Foi
levado sem anncios nem cerimnias na noite do dia 11 de
setembro de 1973, num primitivo avio a hlice da Fora
Area por cujas frestas se metiam os ventos gelados do sul, e
acompanhado s por sua esposa Hortensia Bussi, e sua irm
Laura. Um antigo membro do servio de inteligncia da Junta
Militar, que entrou com os primeiros assaltantes no Palcio de
La Moneda, declarou ao jornalista norte-americano Thomas
Hauser que tinha visto o cadver do presidente "com a cabea
aberta e restos de crebro espalhados pelo cho e pela parede".
Talvez por isso quando a senhora Allende pediu para ver o
rosto no atade, os militares tenham-se negado a descobr-lo e
s pde ver um vulto coberto por um lenol. Foi enterrado
no Cemitrio de Santa Ins, no mausolu familiar de Marmaduque
Grove, sem mais oferendas que um ramo de flores depositado
por sua esposa, dizendo: "Aqui est enterrado Salvador
Allende, presidente do Chile". Acreditavam que dessa forma
estaria fora do alcance da venerao popular, mas no foi possvel.
O tmulo  agora um lugar de peregrinaes permanentes,
e sempre h nele flores depositadas por mos invisveis.
Tratando de impedir isso, o governo tentou fazer com que as
pessoas acreditassem que o cadver fora levado a outro lugar,
mas as flores permanecem frescas no tmulo.
        Outro culto que permanece vivo nas novas geraes  o
de Pablo Neruda em sua casa marinha da Isla Negra. Esta
localidade lendria no  uma ilha nem  negra, embora seu
nome o indique, mas sim uma aldeia de pescadores quarenta
quilmetros ao sul de Valparaso pela estrada de San Antonio,
com caminhos de terra amarela entre pinheiros gigantescos, e
um mar verde e bravio, de grandes ondas. Pablo Neruda teve
ali uma casa que  um lugar de peregrinao de namorados do
mundo inteiro. Franquie e eu tnhamos ido at l para estabelecer
o plano de filmagem enquanto a equipe italiana fazia
as ltimas tomadas no porto de Valparaso, e o carabinero de
planto indicou-nos onde estava a ponte, onde estava a pensao,
onde estavam outros lugares que o poeta consagrou em seus
versos, mas me advertiu que estava proibido visitar a casa.
-        Pode v-la por fora - disse.
        Enquanto espervamos a equipe na penso compreendemos
at que ponto o poeta tinha sido a alma de Isla Negra.
Quando ele estava ali, os jovens do mundo inteiro transbordavam
o lugar levando como nico guia turstico seus vinte poemas
de amor. No queriam nada, a no ser v-lo um instante, e
em ltimo caso pedir-lhe um autgrafo, pois para eles era suficiente
a lembrana do lugar. A penso era ento um ponto
alegre e bulioso, onde Neruda aparecia de vez em quando com
seus ponchos coloridos e seus gorros andinos, enorme e lento
feito um papa. Ia falar pelo telefone - tinha mandado tirar
o seu para ter maior tranqilidade - ou entrar em acordo
com dona Elena, a proprietria, para a preparao de algum
jantar que oferecia aos amigos em sua casa. Isso quer dizer
que a cozinha da penso era de altssimos vos. Neruda era um
especialista nas finuras do mundo, e sabia cozinh-las como
um profissional. Tinha to refinado o culto do bom comer,
que se preocupava com o detalhe mais nfimo ao pr a mesa,
e era capaz de mudar a toalha, a loua e os talheres, tantas
vezes quantas parecesse necessrio, para que estivessem de
acordo com o tipo de comida que ia servir. Doze anos depois
de sua morte, tudo aquilo parecia arrasado por um vento de
desolao. Dona Elena tinha ido para Santiago, esgotada pelas
dores da saudade, e a penso estava a ponto de desmoronar.
Mas ainda ficava o vestgio de grande poesia: desde o ltimo
terremoto, na Isla Negra continuam sendo sentidos tremores
de terra intermitentes a cada dez ou quinze minutos, todos os
dias com todas as suas noites.


A terra treme sempre em Isla Negra

        Encontramos a casa de Neruda  sombra de seus pinheiros
guardies, rodeada pelos quatro lados por uma cerca de
quase um metro de altura, que o poeta construiu ao redor de
sua vida privada. Agora nasceram flores na madeira. Um letreiro
adverte que a casa est lacrada pela polcia, e que  proibido
entrar e tirar fotografias. O carabinero que rondava por ali
de tanto em tanto foi ainda mais explcito: "Aqui est proibido
tudo". Como isto a gente j sabia antes de chegar, o cinegrafista
italiano levou um equipamento grande, muito visvel, para
que fosse retirado na barreira dos carabineros, e levou escondido
outro equipamento, porttil. Alm disso, o grupo foi dividido em trs
automveis, com o fim de levar os rolos de filme
para Santiago conforme fossem sendo filmados. Assim, se fssemos
surpreendidos s perderamos o material que tivssemos
naquele momento. No caso de uma surpresa eles fingiriam no
me conhecer, e Franquie e eu seramos turistas inocentes.
        As portas permaneciam fechadas por dentro, as janelas
tinham sido cobertas por cortinas brancas, e o mastro da entrada
no tinha bandeira, que s era iada para indicar que o poeta
estava em casa. Porm, no meio de tanta tristeza, chamava a
ateno o resplendor do jardim, que mos desconhecidas se
ocupam de cuidar. Matilde, a esposa de Neruda, que tinha
morrido pouco antes da nossa visita, levou os mveis depois
do golpe militar, levou os livros, as colees de tudo de divino
e de humano que o poeta fez ao longo de sua vida errante. No
era a simplicidade, e sim uma grandiloqncia impressionante,

        o        que distinguia as casas que ele teve em diferentes cantos do
mundo. Sua febre de aprisionar a natureza no apenas em seus
versos magistrais, o levou a ter colees de caracis dementes,
de carrancas de proa, de borboletas de pesadelo, de taas e
copos exticos. Em algumas de suas casas a gente se encontrava
de repente com um cavalo empalhado que parecia vivo no meio
de um escritrio. Alm disso, entre suas grandes obsesses
criadoras, a mais visvel depois de sua poesia, e a menos gloriosa,
era a de reformar a seu bel-prazer a arquitetura de suas
casas. Uma delas era to original, que para passar da sala de
visitas  sala de jantar era preciso dar uma volta pelo quintal,
e o poeta tinha guarda-chuvas disponveis para que seus convidados
pudessem comer sem se resfriar, em tempos de chuva.
Ningum desfrutava mais nem ria mais que ele mesmo com
seus prprios disparates. Seus amigos venezuelanos, que relacionam
o mau gosto com o azar, lhe diziam que aquelas colees
eram pavorosas. Ou seja: fatdicas. Ele replicava morto de
rir que a poesia  o antdoto para qualquer malefcio, e demonstrou
isso at a exausto, com suas colees temveis.
        Na verdade, sua residncia principal era a da Rua Marqus
de la Plata, em Santiago, onde morreu de uma velha leucemia
apressada pela tristeza, poucos dias depois do golpe militar, e
que foi saqueada pelas patrulhas de represso que armaram
fogueiras de livros no jardim. Com o dinheiro que recebeu pelo
Prmio Nobel, quando era embaixador da Unidade Popular
em Paris, Neruda comprou na Normandia a antiga cavalaria
de um castelo, depois transformada em residncia, nas margens
de um remanso com ltus de flores rosadas. Tinha uns tetos
altos que pareciam abbadas de igreja, e uns vitrais cujas luzes
pintavam no poeta cores radiantes, enquanto recebia seus amigos
sentado na cama, com sua pompa e sua autoridade de
pontfice. No chegou a desfrut-la um ano.
        Mesmo assim, a casa da Isla Negra  a que os leitores
identificam melhor com sua poesia. Mesmo depois de sua morte
e em seu estado atual de abandono, continua recebendo uma
nova gerao de namorados que no tinham mais de oito anos
quando ainda vivia o poeta. Chegam do mundo inteiro, para
gravar coraes com iniciais e escrever mensagens de amor
na cerca que impede a entrada. A maioria so variaes sobre
o mesmo tema: Juan y Rosa se aman a travs de Pabio, Gracias
Pablo porque nos enseaste el amor, Queremos amar tanto
como t. Mas h outras que os carabineros no conseguiram
impedir ou apagar: El amor nunca muere, generales, Allende y
Neruda viven, Un minuto de oscuridad no nos volver ciegos.
Esto escritos ainda nos espaos menos esperados, e a cerca
inteira d a impresso de que h vrias geraes de letreiros
sobrepostos por falta de espao. Se algum tivesse a pacincia
de faz-lo, poderiam ser reconstrudos poemas completos de
Neruda pondo em ordem os versos soltos que os namorados
escreveram de memria nas tbuas da cerca. O mais impressionante
de nossa visita, porm, era que a cada dez ou quinze
minutos aqueles letreiros pareciam ganhar vida com os tremores
profundos que sacudiam a terra. A cerca queria sair do
cho, as madeiras rangiam nas dobradias e ouvia-se tilintar
de copos e metais como numa balandra  deriva, e a gente
tinha a impresso de que era o mundo inteiro que estremecia
com tanto amor semeado no jardim da casa.

        Na hora da verdade, todas as nossas precaues foram
inteis. Ningum apreendeu as cmaras nem impediu a passagem
de ningum, porque os carabineros tinham ido almoar.
Filmamos tudo, no s o que estava previsto mas muito mais,
pois Ugo estava dentro do mar, embriagado pelos tremores,
e se metia at a cintura nas ondas que arrebentavam com um
estrondo pr-histrico contra as rochas. Arriscava a vida, porque
mesmo sem terremotos esse mar indomvel o teria arrastado
at os rochedos. Mas ningum podia imped-lo. Ugo filmava
sem parar, sem direo, delirando no visor, e qualquer um
que conhea por dentro o ofcio do cinema sabe muito bem que
 impossvel dirigir ou controlar um cinegrafista em transe.
Grazia subiu aos cus

        Tal como tnhamos planejado, cada rolo filmado era mandado
com urgncia a Santiago, para que Grazia o levasse 
Itlia naquela mesma noite. A data de sua viagem no foi escolhida
ao acaso. Fazia uma semana que estvamos estudando a
maneira de tirar do Chile todo o material filmado at ento,
mas no tnhamos podido concretizar as vias clandestinas previstas
no plano inicial. Nesse nterim, foi divulgada a notcia
de que chegava de Roma o novo cardeal do Chile, monsenhor
Francisco Fresno, substituto do cardeal Silva Henrquez, que
tinha se aposentado ao completar setenta e cinco anos. Este
ltimo, inspirador da Vicara de la Solidariedad, deixava um
sentimento de gratido popular e uma conscincia de luta no
clero que tirava o sono da ditadura.
        No era para menos. Nas poblaciones mais pobres h
padres que trabalham como carpinteiros, como pedreiros, como
operrios, mo a mo com os moradores, e alguns deles foram
mortos pela polcia em manifestaes de rua. No tanto por
sua condescendncia com o novo cardeal - cujo pensamento
poltico ainda era um enigma - mas pelo jbilo que lhe provocava
a sada do cardeal Silva Henrquez, o governo interrompeu
por um dia as restries do estado de stio e fez um chamado
atravs dos meios oficiais de difuso para que fosse feita uma
recepo colossal a monsenhor Fresno. Mas ao mesmo tempo,
por via das dvidas, o general Pinochet partia para uma viagem
de duas semanas ao norte do pas, com sua famlia e com toda
sua corte de jovens ministros desconhecidos, sem dvida para
que nem ele nem nenhum deles se visse obrigado a participar
na recepo imprevisvel. Confundida a cidade pelas decises
oficiais contraditrias, s duas mil pessoas acudiram  Plaza
de Armas, onde cabem e eram esperadas pelo menos seis mil.
        Fosse como fosse, era fcil prever que aquela tarde de
confuso oficial era a mais propcia para tirar do pas a primeira
remessa de rolos filmados. Nessa mesma noite chegou para
ns, em Valparaso, a mensagem em cdigo: Grazia subiu aos

cus. E assim foi: ela chegou ao aeroporto mais vigiado que
nunca, mas tambm mais abarrotado e anrquico que nunca, e
os prprios policiais a ajudaram a despachar as malas e embarcar
sem perda de tempo no mesmo avio em que acabava de
chegar o cardeal.

* * *


-7-
A POLICIA ESPREITA:
O CIRCULO COMEA A SE FECHAR



        Elena tinha passado um fim de semana angustiante enquanto
eu filmava em Concepcin e Valparaso sem entrar em
contato com ela. Seu dever era denunciar meu desaparecimento,
mas ela deixou passar mais tempo que o previsto sabendo que
eu era um incorrigvel improvisador. Esperou toda a noite do
sbado. No domingo, vendo que eu no chegava, entrou em
contato sem nenhum resultado com pessoas que poderiam ter
alguma pista. Tinha fixado para si mesma, como prazo ltimo,
at o meio-dia da segunda-feira para dar o alarma, quando me
viu entrar no hotel com cara de maldormido e sem me barbear.
Ela tinha cumprido misses muito importantes e arriscadas, mas
jurou que nunca sofrera tanto com um falso esposo indomvel
como tinha sofrido comigo. Mas dessa vez tinha um motivo
adicional e justo. No fim de diligncias incontveis, de encontros
fracassados e de um planejamento milimtrico, eu tinha
marcado para as onze da manh desse mesmo dia a entrevista
secreta com os dirigentes da Frente Patritica Manuel
Rodrguez.
        Era, sem dvida, a mais difcil e perigosa de todas as
que tnhamos previsto, e a mais importante. A Frente Patritica
Manuel Rodrguez est integrada em sua quase totalidade
por membros de uma gerao que mal tinha sado da escola
primria quando Pinochet assaltou o poder. Declarou-se partidria
da unidade de todos os setores de oposio, para a derrubada
da ditadura e o regresso a uma democracia que permita
ao povo chileno decidir com autonomia integral seu prprio
destino. Seu nome veio de um personagem alegrico da independncia
chilena, em 1810, que parecia ter poderes sobrenaturais
para driblar todos os controles, tanto internos quanto
externos, e que manteve a comunicao constante entre o exrcito
libertador que operava em Mendoza, no lado argentino,
e as foras clandestinas que resistiam dentro do Chile, depois
que os patriotas foram derrotados e o poder reconquistado
pelos realistas. Muitos elementos das condies de ento tm
semelhana mais do que notveis com a situao atual do Chile.
        Entrevistar os dirigentes da Frente Patritica  um privilgio
com o qual sonha qualquer bom jornalista. Eu no podia
ser uma exceo. Consegui chegar no ltimo instante, depois
de colocar os membros da equipe nos diferentes lugares combinados.
Cheguei sozinho a um ponto de nibus da Rua Providncia
com a senha de identificao: o jornal El Mercurio do
dia e um exemplar da revista Qu Pasa? No tinha nada mais
a fazer, a no ser esperar, at que algum se aproximasse para
perguntar: "O senhor vai para a praia?" Eu devia responder:
"No, vou ao zoolgico". O cdigo me parecia absurdo, porque
ningum pensaria em ir  praia no outono, mas os oficiais de
ligao da Frente Patritica me disseram mais tarde, com toda
a razo, que justamente por ser absurdo no havia nenhuma
possibilidade de que algum usasse o cdigo por erro ou casualidade.
Dez minutos depois, quando j sentia que minha presena
era notria demais num lugar com tanta gente, vi aproximar-se
um rapaz de estatura mediana, muito magro, que mancava
da perna esquerda e usava uma boina que teria sido suficiente
para que eu o identificasse como um conspirador. Dirigiu-se a
mim sem dissimular, e eu cortei-lhe o passo antes que me dissesse
e esperasse a contra-senha.
        -        Voc no podia ter-se disfarado de outra coisa? -
disse eu rindo. - Porque do jeito que voc est, at eu o
reconheci.
        Mais do que surpreendido, ele me olhou muito triste.
        -        D para notar muito?
        -        A lguas de distncia - respondi.
        Era um rapaz com senso de humor, sem nenhuma vaidade
de conspirador, e isto aliviou a tenso desde o primeiro contato.
Nem bem se aproximou de mim, uma caminhonete de carga
com o letreiro de uma padaria estacionou na minha frente, e
eu subi no banco ao lado do motorista. Ento demos vrias
voltas pelo centro da cidade e fomos recolhendo em diferentes
pontos os membros da equipe italiana. Mais tarde nos deixaram
em cinco lugares diferentes, tornaram a deslocar-nos separados
em outros automveis, e no final voltaram a reunir-nos
e levar-nos em outra caminhonete onde j estavam as cmaras,
as luzes e o equipamento de som. Eu no tinha a impresso
de estar vivendo uma aventura sria e grave da vida real, mas
sim de estar brincando de filme de espionagem. O contato de
boina e da cara de conspirador tinha desaparecido numa das
tantas voltas, e nunca mais o vi. Em seu lugar apareceu um
motorista com pinta de gozador, mas de um rigor inquebrantvel.
Eu me sentei ao seu lado, e o resto da equipe atrs, no compartimento
de carga.
        -        Vou lev-los para dar um passeio - ele disse -, para
que sintam o cheirinho do mar chileno.
        Ps o rdio no volume mximo e comeou a dar voltas
pela cidade, at eu no saber onde estvamos. Mesmo assim,
para ele isso no foi suficiente, e mandou-nos fechar os olhos
com um modismo chileno que eu j tinha esquecido: "Buenos
chiquillos, ahora van a hacer tutito~' (meninos bonzinhos agora
vo nanar). J que no dvamos bola, insistiu de maneira mais
direta:
        -        Depressinha, vamos,  s fechar os olhinhos e no
abr-los at que eu diga, porque seno a histria acaba aqui
mesmo.
        Contou-nos que tinha para essas operaes um modelo
especial de "culos cegos", que por fora pareciam culos de
sol, mas que por dentro no deixavam ver nada. S que desta
vez tinha esquecido os culos. Os italianos que iam atrs no
entendiam a gria chilena, e tive de traduzir para eles.
        -        Durmam - disse.
        Ento pareceram entender menos.
        -        Dormir?
        -        Isso mesmo, do jeito que esto ouvindo - disse -,
deitem, fechem os olhos e no abram at que eu avise.


A distncia exata: dez boleros

        Deitaram-se amontoados no cho da caminhonete, e eu
continuei tentando identificar o bairro que comevamos a atravessar.
Mas o motorista me avisou, seco:
        -        Para o senhor vale a mesma coisa, companheiro, portanto
vai nanando a.
        Ento apoiei a nuca no encosto do banco, fechei os olhos
e me deixei levar pela corrente de boleros que fluam sem parar
do rdio. Boleros de sempre: Raul Chu Moreno, Lucho Gatica,
Hugo Romani, Leo Marini. O tempo passava, as geraes se
sucediam, mas o bolero permanecia invencvel no corao dos
chilenos, mais que em qualquer outro pas. A caminhonete
parav a cada certo tempo, ouviam-se murmrios incompreensveis,
e a voz do motorista: "Tchau, depois nos vemos". Acho
que falava com outros militantes colocados em lugares-chave,
que lhe davam informaes sobre o percurso. Eu fiz uma vez
uma tentativa de abrir os olhos, pensando que ele no me via,
e ento descobri que ele tinha mexido o espelho retrovisor de
tal modo que podia dirigir ou falar com seus contatos sem tirar
os olhos de cima de mim.
        -        Cuidadinho a! - disse. - O primeiro que abrir os
olhos, voltamos para casa e acabou o passeio.
        Eu tornei a fech-los, e comecei a cantar com o rdio:
Que te quiero, sabrs que te quiero. Os italianos deitados no
compartimento de carga me fizeram coro. O motorista se entusiasmou.
        -        Isso, meninos, cantando a, cantam muito bem -
disse. - Esto em boas maos.
        Antes do exlio havia alguns lugares de Santiago que eu
identificava com os olhos fechados: o matadouro pelo cheiro
de sangue velho, a comuna de San Miguel pelos cheiros de leo
de motor e material de ferrovia. No Mxico, onde vivi muitos
anos, saberia que estava perto da sada de Cuernavaca pelo
cheiro inconfundvel da fbrica de papel, ou na zona de Azcapotzalco
pela fumaa da refinaria. Naquele meio-dia em
Santiago no encontrei nenhum cheiro conhecido, apesar de
procur-lo por mera curiosidade enquanto cantvamos. No fim
de dez boleros, a caminhonete parou.
        -        No abram os olhinhos - apressou-se em dizer-nos
o motorista. - Vamos descer direitinho, de mozinhas dadas
para que ningum caia de bundinha.
        Fizemos isso, e comeamos a subir e descer por um caminho
de terra solta, talvez escarpado e sem sol. No final mergulhamos
numa escurido menos fria e com cheiro de peixe fresco,
e por um momento pensei que tnhamos descido at Valparaso,
 beira-mar. Mas no dava tempo. Quando o motorista mandou
a gente abrir os olhos, nos encontrvamos os cinco num quarto
estreito, com paredes limpas e mveis baratos mas muito bem
conservados. Na minha frente estava um homem jovem, bem
vestido, com o bigode postio grudado de qualquer jeito. Soltei
uma risada.
        -        Arrume-se melhor - disse a ele -, desse jeito ningum
acredita no bigode.
        Tambm ele deu uma gargalhada e tirou o bigode postio.
        -         que eu estava meio apressado - disse.
        O        gelo rompeu-se completamente, e todos passamos brincando
para outro cmodo, onde jazia em aparente sonolncia
um homem muito jovem com a cabea enfaixada. S ento
compreendi que estvamos num hospital clandestino muito bem
conservado, e que o ferido era Fernando Larenas Seguel, o
homem mais procurado do Chile.
        Tinha vinte e um anos e era um militante ativo da Frente
Patritica Manuel Rodrguez. Duas semanas antes regressava
para sua casa de Santiago,  uma da madrugada, sozinho e desarmado,
dirigindo seu automvel, quando foi rodeado por
quatro homens vestidos em roupas civis e com fuzis de guerra.
Sem dizer nada, sem fazer-lhe nenhuma pergunta, um deles
disparou atravs do vidro, e o projtil atravessou-lhe o ante-
brao esquerdo e feriu-o no crnio. Quarenta e oito horas depois,
quatro oficiais da Frente Manuel Rodrguez o resgataram
a tiros da Clnica Nuestra Seora de las Nieves, onde estava
em estado de coma sob vigilncia policial, e o levaram a um
dos quatro hospitais clandestinos do movimento. No dia da
entrevista estava se recuperando, e teve domnio suficiente para
responder nossas perguntas.
        Poucos dias depois deste encontro, fomos recebidos pela
direo suprema da Frente Patritica, com as mesmas precaues
quase cinematogrficas, mas com uma diferena significativa:
em vez de um hospital clandestino, nos encontramos
numa casa de classe mdia, alegre e clida, com uma estonteante
coleo de discos dos grandes mestres e uma excelente biblioteca
literria com livros udos, o que no  muito freqente em
muitas boas bibliotecas. A idia original era film-los encapuados,
mas no final decidimos proteg-los com recursos tcnicos
de iluminao e enquadramento. O resultado - como se v no
filme -  mais convincente e humano, e naturalmente muito
menos truculento que as entrevistas tradicionais de dirigentes
clandestinos. Terminados os diversos encontros com personalidades
pblicas e secretas, Elena e eu decidimos de comum
acordo que ela regressaria s suas atividades normais na Europa,
onde vivia h algum tempo. Seu trabalho poltico  importante
demais para submet-la a outros riscos alm dos indispensveis,
e a experincia adquirida at ento me permitia terminar
sem a sua ajuda os pedaos finais do filme, que pareciam menos
perigosos. No tornei a encontr-la at hoje, mas quando a vi
afastar-se na estao do metr, de novo com sua saia escocesa
e seus mocassins de colegial, compreendi que sentiria falta dela,
mais do que imaginava, depois de tantas horas de amores fingidos
e sobressaltos em comum.
        Prevendo que as equipes estrangeiras tivessem de sair do
Chile por motivos de fora maior, ou que fossem proibidas de
trabalhar, um setor de resistncia interna me ajudou a formar
uma equipe de cineastas jovens sados de suas fileiras. Foi um
acerto. Esta equipe fez um trabalho to rpido e com resultados
to bons quanto as outras, melhorado, alm do mais, pelo
entusiasmo de saber o que faziam, pois sua organizao poltica
nos deu a certeza de que no s eram de absoluta confiana
como estavam bem treinados para o perigo. No final, quando
os estrangeiros no eram suficientes, foi necessrio ter mais
pessoal para filmar nas poblaciones, e essa equipe encarregou-se
de criar outras, e estas outras, at que na ltima semana chegamos
a ter seis equipes chilenas trabalhando ao mesmo tempo
em lugares diferentes. Para mim, elas serviram, alm disso, para
medir melhor o grau de determinao e a eficcia da gerao
nova que est empenhada, sem pressa e sem rudo, em libertar
o Chile do desastre militar. Apesar da pouca idade, todos tm
mais que uma viso do futuro. Tm um passado de faanhas
incgnitas e vitrias ocultas, que levam guardado no corao
com uma grande modstia.


O crculo comea a se fechar

        Nos dias em que entrevistamos a direo da Frente Patritica,
chegou a Santiago a equipe francesa, depois de cobrir
com resultados excelentes o programa previsto. Era indispensvel,
pois o norte  uma zona histrica na formao dos partidos
polticos do Chile. Ali se aprecia melhor a continuidade ideolgica
e poltica, desde Luis Emilio Recabarren, criador do primeiro
partido operrio, no amanhecer do sculo, at Salvador
Allende. Nessa zona est uma das minas de cobre mais ricas
do mundo, que foi industrializada pelos ingleses no sculo passado,
nos tempos da revoluo industrial, e deu origem  nossa
classe operria. Dali vem, alm disso, o movimento social chileno,
sem dvida o mais importante da Amrica Latina. Quando
Allende subiu ao poder, sua medida mais importante, e a mais
perigosa, foi a nacionalizao do cobre. Uma das primeiras de
Pinochet foi sua restituio a seus donos tradicionais.
        O        relatrio de trabalho do diretor da equipe francesa,
Jean Claude, foi muito amplo e detalhado. Tinha que imagin-lo
na tela para no estropiar a unidade do filme, pois no
poderia ver as provas ate que retornasse a Madri com tudo terminado,
e a seria tarde demais para qualquer ajuste. Em parte
por razes de segurana, mas sobretudo pelo prazer de estar
no Chile, no nos reunimos num lugar fixo, percorremos a
cidade em outras manhs deste outono crucial. Caminhamos
pelo centro, subimos nos nibus menos usuais, tomamos cafs
nos lugares mais visveis, comemos mariscos com cerveja, e j
de noite estvamos to longe do hotel que nos metemos no
metro.
        Eu no o conhecia, pois tinha sido inaugurado pela Junta
Militar, embora a construo tenha sido iniciada no governo de
Eduardo Frei e continuada no governo Allende. Surpreendeu-me
sua limpeza e eficcia, e a naturalidade com que meus compatriotas
tinham-se acostumado a viajar debaixo da terra. Era
um mundo que at ento eu no tinha descoberto, porque carecamos
de argumentos convincentes para pedir autorizao de
filmagem. O fato de que tenha sido construdo pelos franceses
nos deu a idia de que a equipe de Jean Claude poderia film-lo.
Estvamos falando nisso quando chegamos  estao Pedro
Valdvia, e na escada de sada tive a impresso concreta de que
algum estava nos vigiando. Era verdade: um policial  paisana
nos observava com tanta ateno que seu olhar e o meu se
encontraram na metade do caminho.
        quela altura eu j era capaz de reconhecer um policial 
paisana no meio da multido. Embora vestidos de civis, eles
tm um aspecto inconfundvel, com seu jaqueto azul-escuro,
fora de moda, e o cabelo cortado quase a zero, como os recrutas.
Mas o que primeiro os delata  sua maneira de olhar, pois os
chilenos no olham ningum na rua - caminham ou viajam
nos nibus com os olhos fixos. Portanto, quando vi o homem
corpulento, que continuava me olhando mesmo depois que se
percebeu descoberto, identifiquei-o no mesmo instante como
um policial. Tinha as mos nos bolsos da jaqueta grossa, de l,
o cigarro nos lbios, e o olho esquerdo meio fechado pelo
incmodo da fumaa, numa imitao lamentvel dos detetives
de cinema. No sei porque me pareceu que era Guatn Romo,
um sicrio da ditadura que tinha bancado o esquerdista ardoroso
e denunciou numerosos ativistas clandestinos que depois
foram sacrificados.
        Reconheo que meu erro grave foi olh-lo, mas teria sido
inevitvel, porque no foi um ato voluntrio e sim um impulso
inconsciente. Depois, pela mesma fora instintiva, olhei primeiro
 minha esquerda, e em seguida  minha direita, e vi outros
dois. "Fale-me qualquer coisa", disse a Jean Claude, em voz
muito baixa. "Fale mas no gesticule, no olhe, no faa nada".
Ele compreendeu e continuamos caminhando com a naturalidade
de dois inocentes, at sairmos  superfcie. Era de noite,
mas o ar tinha ficado mais morno e mais claro que nos dias
anteriores, e havia muita gente que regressava para casa pela
Alameda. Ento me separei de Jean Claude.
-        Desaparea - disse a ele. - Eu acho voc depois.
Ele correu para a direita e eu me perdi na multido em
sentido contrrio. Tomei um txi que passou na minha frente
como que enviado pela minha me, e ento cheguei a ver os
trs homens surpreendidos que acabavam de sair da estao
subterrnea e no sabiam a quem seguir, se Jean Claude ou eu,
e foram engolidos pela multido. Quatro quarteires adiante
desci, tomei outro txi em sentido oposto, e depois outro e
outro, at que achei que era impossvel que estivessem me
seguindo. A nica coisa que no entendi, nem consegui entender
ainda,  por que teriam seguido a gente. Desci na frente
do primeiro cinema que vi e entrei sem nem olhar o programa,
convencido como sempre, por pura deformao profissional, de
que no h ambiente mais seguro e mais propcio para pensar.


O que o senhor acha de minha bunda, cavalheiro?

Era um programa duplo de filme e espetculo ao vivo.
No tinha acabado de sentar quando terminou a projeo, iluminaram
o lugar  meia-luz, e o mestre de cerimnias comeou
a longa falaao para vender seu espetaculo. Eu estava tao
impressionado, que continuei olhando para a porta, para ver
se ainda me seguiam. Os vizinhos comearam a olhar tambm,
com essa curiosidade irreprimvel que  quase uma lei da conduta
humana, como ocorre na rua quando algum olha para o
cu e a multido acaba parando e olhando tambm, tentando
ver o que o outro v. Mas ali havia sem dvida uma razo
adicional. Aquele lugar inteiro era esquisito. A decorao, as
luzes, a combinao de cinema e strip-tease e sobretudo os espectadores,
todos homens, e com um aspecto de fugitivos sabe-se
l de onde. Todos, e eu mais que todos, pareciam escondidos.
Para qualquer polcia, com ou sem razo, aquela pareceria uma
assemblia de suspeitos.
        A impresso de espetculo proibido estava muito bem
dada pelos empresrios, e em especial pelo mestre de cerimnias,
que anunciava as coristas no palco com descries que
mais pareciam de pratos suculentos de um menu. Elas iam
aparecendo conforme ele chamava, mais peladas do que quando
tinham vindo ao mundo, e maquiavam o corpo para inventar
graas que no existiam. Depois do desfile inicial, ficou sozinha
no palco uma morena de redondezas astronmicas que
requebrava e movia os lbios para fingir que era ela quem
cantava a todo volume a cano de um disco de Roco Jurado.
J havia passado tempo suficiente para que me arriscasse a
sair, quando ela desceu do palco arrastando um microfone de
fio longo e comeou a fazer perguntas de uma graa petulante.
Eu estava esperando uma boa ocasio para sair, quando me senti
revelado pelo refletor, e ouvi m seguida a voz suburbana da
falsa Roco.
        - Vamos ver o senhor, cavalheiro, o da carequinha to
elegante.
        No era eu,  claro, e sim o outro, mas era eu por desgraa
quem tinha de responder por ele. A corista se aproximou
arrastando o fio do microfone, e falou to perto de mim que
percebi as cebolas de seu hlito.
        -        O que o senhor acha das minhas cadeiras?
        -        Estao multo bem - respondi no microfone -, o que
quer que eu diga?
        Em seguida virou de costas e moveu as ndegas quase na
minha cara.
        -        E minha bunda, cavalheiro, o que est achando dela?
        -        Estupenda - disse. - Imagine s.
        Depois de cada resposta minha, ouvia-se uma gravao
de gargalhadas nos alto-falantes, igualzinho nas comdias pueris
da televiso norte-americana. O truque era indispensvel, porque
ningum ria na sala, e em todos se notava o desejo de se
tornarem invisveis. A corista aproximou-se mais, e continuava
movendo-se muito perto da minha cara para que eu visse a
pinta verdadeira que tinha numa ndega, uma pinta negra e
peluda como uma aranha.
        -        O senhor gosta da minha pinta, cavalheiro?
        Depois de cada pergunta aproximava o microfone da minha
boca para aumentar o volume da minha resposta.
        -        Claro - disse -, a senhora inteirinha  muito
bonita.
        -        E o que o senhor faria comigo, cavalheiro, se eu lhe
propusesse passar uma noite na cama? Vamos, conte-me tudo.
        -        Olhe, no sei o que dizer - disse eu. - Ia am-la
multo.
        Aquele suplcio no terminava nunca. Alm do mais, em
minha confuso tinha esquecido de falar como uruguaio, e quis
corrigir o erro na ltima hora. Ento ela me perguntou de onde
eu era, tentando imitar meu sotaque indefinido, e quando eu
disse, exclamou:

        -        Os uruguaios so muito bons de cama. O senhor
no ?
        No me sobrou outro caminho a no ser bancar o chato.
        -        Por favor - disse a ela -, no me pergunte mais
nada.
        Ento ela entendeu que no havia mais nada a fazer comigo,
e buscou outro interlocutor. No momento em que achei
que minha sada no seria demasiado ostensiva, abandonei o
lugar depressa e me dirigi caminhando ao hotel, com a inquietao
crescente de que nada do que aconteceu naquela tarde
tinha acontecido por acaso.


90

* * *


-8-
ATENO: H UM GENERAL
DISPOSTO A CONTAR TUDO



        Alm dos contatos de Elena, eu tinha criado uma vertente
paralela de trabalho com amigos de antigamente, que me ajudaram
a formar as equipes chilenas de filmagem e a mover-nos
com inteira liberdade nas poblaciones. A primeira pessoa que
procurei, nos dias em que regressei de Concepcin, foi Elosa,
uma mulher elegante e bela, casada com um industrial muito
conhecido. Ela me levou at sua sogra, uma viva de mais de
setenta anos, valente e engenhosa, que superava a solido consumindo
novelas de televiso, quando seu sonho dourado era
ser protagonista de aventuras intrpidas da vida real.
        Elosa e eu tnhamos sido cmplices de atividades polticas
na universidade, e nossa amizade tinha se consolidado
durante a ltima campanha de Salvador Allende, quando participamos
juntos do setor de propaganda. Poucos dias depois
da minha chegada fiquei sabendo por acaso que ela era a estrela
de uma empresa de relaes pblicas, e no pude resistir 
tentao de fazer-lhe um telefonema annimo para comprovar
que era ela. A voz serena e decidida que me respondeu parecia
ser a dela efetivamente, mas havia algo menos convincente em
sua dico. Portanto, nessa tarde me plantei sozinho num caf
da Rua Hurfanos, do qual podia v-la sair do escritrio, e assim
foi. No s no se notavam nela os doze anos que tinham passado,
como estava mais elegante e bela que nunca. Comprovei,
alm disso, que no tinha um chofer de uniforme, como seria
de se supor tratando-se da esposa de um burgus influente,
mas era ela mesma quem dirigia um deslumbrante BMW 635
prateado. Ento mandei-lhe pelo correio um papel com uma
nica linha: "Antonio est~i aqui e quer v-la". Era o nome
falso com o qual ela me conheceu durante as lutas polticas
universitrias, e eu confiava que ela lembraria.
        Foi um clculo correto. No dia seguinte,  uma em ponto, o
tubaro prateado passou cantando pneus pela esquina de Apoquindo,
na frente da agncia Renault. Eu saltei para dentro,
fechei a porta, e ela ficou atnita at me reconhecer pelo riso.
        - Voc est louco! - disse.
        - Que dvida! - respondi.
        Fomos almoar na penso onde eu tinha ido sozinho no
primeiro dia, mas encontramos as portas trancadas com tbuas
cruzadas e um letreiro que mais parecia um epitfio: Fechado
para sempre. Ento fomos a um restaurante francs que eu
conhecia por aqueles lados. No recordo o nome, mas  confortvel,
com um bom servio, e est na frente do motel mais
conhecido e elegante da cidade. Elosa se divertia reconhecendo
os automveis dos clientes que preferiam fazer o amor enquanto
ns almovamos, e eu no me cansava de admirar a
maturidade de seu bom humor.
        Fui direto ao assunto. Contei-lhe sem reservas o motivo
de minha permanncia clandestina, e pedi sua colaborao para
fazer alguns contatos que podiam ser menos arriscados para
uma mulher como ela, protegida pelos privilgios de sua classe.
Isto aconteceu quando ainda no tnhamos resolvido como
filmar nas pobladiones, por falta de bons padrinhos polticos,
e eu achava que ela podia me ajudar a encontrar amigos comuns
dos anos da Unidade Popular que eu tinha perdido nas
trevas da clandestinidade.
        No s aceitou com grande entusiasmo,como durante trs
noites me acompanhou a reunies secretas, em setores da cidade
onde era menos perigoso chegar num automvel sagrado
como o dela.
        - Ningum pode acreditar que um BMW 635 seja inimigo
da ditadura - disse, encantada.
        Graas a isso no me prenderam uma noite em que Elosa
e eu fomos surpreendidos numa reunio secreta por um dos
santos blecautes provocados pela resistncia naqueles dias. Os
responsveis pela reunio tinham-me antecipado a notcia. Haveria
primeiro um apagn de quarenta minutos, depois outro de
uma hora, e finalmente outro que deixaria Santiago sem luz por
dois ou trs dias. A reunio estava prevista para muito cedo,
pois as foras de represso ficavam tomadas de um estado de
nervosismo quase histrico durante os apagones, e as rondas de
rua eram indiscriminadas e brutais. Depois viria o toque de
recolher. Mas aconteceu alguma coisa e todos tivemos imprevistos
de ltima hora, e ainda no tnhamos terminado a conversa
principal quando ocorreu o primeiro apagn.
        Os responsveis polticos pela reunio decidiram que
Elosa e eu fssemos embora assim que a luz voltasse, e que o
resto sasse depois, separadamente. Assim que se restabeleceu
a energia samos por uma estrada sem calamento na beira de
uma montanha. De repente, numa curva, nos encontramos cara
a cara com vrias caminhonetes da CNI - a polcia secreta -
que formavam uma espcie de tnel nos dois lados do caminho.
Os agentes vestidos estavam armados com metralhadoras. Elosa
tratou de frear, mas eu a impedi.
        -         preciso parar - ela disse.
        -        Continue - eu disse. - No fique nervosa, vai conversando,
vai rindo, e no pare enquanto no mandarem. Eu
tenho meus documentos em ordem.
        No tinha acabado de dizer isso quando toquei o bolso, e
meu fgado gelou: eu no tinha ~ carteira com passaporte. Um
dos homens parou no meio do caminho com um brao levantado,
e Elosa teve que frear. Ele iluminou nossa cara com
uma lanterna de pilhas, explorou o interior do carro com o
facho de luz, e nos deixou passar sem pronunciar uma palavra.
Elosa tinha razo: no era possvel acreditar na periculosidade
de um automvel como o dela.


Uma av de pra-quedas


        Foi naqueles dias que conheci sua sogra, que ambos decidimos
chamar de Clemencia Isaura desde a primeira visita, por
uma associao de idias que nunca conseguimos decifrar. Aparecemos
sem anunciar na suntuosa casa nmero 727 dos bairros
altos s cinco da tarde, e a encontramos em seu estado de
placidez perptua, tomando uma xcara de ch com biscoitinhos
ingleses, enquanto os disparos de armas pesadas ressoavam na
sala, e a tela da televiso se enchia de sangue. Usava um vestido
caro, com chapu e luvas, pois tem o costume de tomar o ch
das cinco em ponto vestida como se fosse a uma festa de aniversrio,
mesmo estando sozinha. Porm, aqueles hbitos de
romance ingls no estavam muito de acordo com sua personalidade,
pois sendo j casada e com filhos, havia sido piloto de
planadores no Canad, e tinha uma boa marca de saltos em
pra-quedas.
        Quando soube que a procurvamos para um assunto clandestino,
importante e perigoso, me disse: "Que bom, porque a
vida fica to chata que a gente se ieste, se arruma, fica elegante,
e no sabe para qu". Entretanto, a proposta especfica de
que me ajudasse a localizar cinco pessoas em bairros difceis da
cidade provocou-lhe certa desiluso.
-        Se pelo menos fosse para jogar bombas! - disse ela.
        Eu no queria procurar aqueles cinco homens pelos canais
normais da resistncia. Todos tinham trabalhado comigo desde
antes da Unidade Popular. Nenhum deles tinha sido exilado.
Um deles foi o que avisou Ely, no dia do golpe militar, que eu
estava sendo fuzilado na frente dos escritrios da Chile Films.
Outro esteve num campo de concentrao no primeiro ano da
ditadura, e depois continuou em Santiago com uma vida aparentemente
normal, mas fazendo um trabalho poltico incansvel.
Outro tinha estado algum tempo no Mxico, onde fez contatos
com os exilados chilenos, e regressou com seus documentos
legais para trabalhar na resistncia. Outro tinha colaborado
comigo na escola de teatro, tnhamos continuado trabalhando
juntos em cinema e televiso, e na atualidade  um ativo dirigente
sindical. Outro tinha estado na Itlia durante dois anos,
e agora  chofer de caminhes de carga, o que lhe permite fazer
um bom trabalho de coordenao. Os cinco tinham mudado
de casa, de ofcio e de identidade, e eu no tinha nenhuma pista
para encontr-los. H mais de mil chilenos vivendo assim, trabalhando
na resistncia com uma identidade diferente da que
tiveram at 1973, e o desafio para Clemencia Isaura era encontrar
o fio da meada para chegar at o novelo.
        Alm disso, os contatos prvios que ela fizesse seriam
indispensveis, porque permitiriam estabelecer em que estado
de nimo se encontravam meus velhos amigos, antes de revelar-lhes
que eu estava no Chile e precisava da ajuda deles. No sei
em detalhes como ela fez isso. Mal e mal tivemos tempo de
ver-nos com calma antes da minha sada, e no fiz muitas perguntas concretas, porque na poca no tinha pensado em contar
a aventura neste livro. A nica coisa que ela me disse foi que
nunca tinha visto na televiso um filme to emocionante como
o que estava vivendo.
        Sei que teve que caminhar dias inteiros por bairros marginais,
perguntando aqui, averiguando acol, a partir dos poucos
fios que eu encontrava quase apagados em minha memria.
Adverti-a de que fosse vestida de forma que lhe permitisse
confundir-se com os pobres, mas ela no me levou a srio. Ia
como se fosse tomar o ch com biscoitinhos ingleses nas quebradas
do matadouro de Santiago. Mas sua simpatia irresistvel
e seu calor humano impunham uma confiana imediata. O
fato  que depois de uma semana tinha encontrado trs dos
perdidos, e organizou para eles no nmero 727 um jantar que
no teria sido melhor nem mais solene se tivesse sido uma ceia
de gala. Dali saiu a formao da primeira equipe chilena, e
todos os contatos para filmar nas poblaciones. A protagonista
inesquecvel da etapa seguinte de coordenao foi uma mulher
admirvel, mida, humilde, quase invisvel, cuja diligncia maudita
e cujo sentido de organizao clandestina fizeram possvel
que no houvesse um nico tropeo durante a filmagem nas
poblaciones. O nome com o qual a chamvamos, que foi
o nico que conhecemos, era ao mesmo tempo uma definio
de sua imagem e uma homenagem a seu valor: a formiguinha
invencvel.


A longa procura do General Eletric

        Enquanto Clemencia Isaura trabalhava, eu tinha aproveitado
as horas livres para fazer contatos de alta nvel com a
ajuda de Elosa. Uma noite estvamos num restaurante de luxo
esperando um emissrio que na verdade no chegou nunca,
quando entraram dois generais com o peito blindado de condecoraes.
Ela cumprimentou-os  distncia com um gesto to
familiar de mo que me encheu de pressgios escuros. Um deles
aproximou-se de nossa mesa, e conversou de p com Elosa
sobre frivolidades sociais durante uns minutos, sem me dedicar
nem ao menos um olhar. No consegui identificar sua patente,
pois nunca aprendi a fazer diferena entre as estrelas dos generais
e as dos hotis. Quando voltou para a sua mesa, ela baixou
o tom de voz, e pela primeira vez me falou de suas boas relaes
com alguns militares de patente elevada, que costumava
encontrar por causa do seu trabalho.
        Em sua opinio, um dos fatores da persistente permanncia
de Pinochet no poder, foi ter retirado da ativa oficiais de
sua gerao, e ter ficado com um alto comando de oficiais novos,
que estiveram sempre abaixo dele, que no so seus amigos,
que mal e mal o conhecem e que na maioria o obedecem com
uma submisso incondicional. Mas ao mesmo tempo esse  o
seu flanco mais vulnervel, porque muitos oficiais novos nao
querem ser culpados pelo assassinato do presidente Allende,
nem pelos anos brbaros da represso sangrenta e da rapina do
poder. Sentem que tm as mos limpas, e portanto se acham
predestinados a fazer um acordo com os civis para o retorno
sem dor  democracia. Frente  minha cara de assombro, Elosa
foi mais longe: pelo menos um general que ela conhecia estava
disposto a fazer revelaes pblicas sobre as profundas fendas
internas das Foras Armadas.
-        Est estourando de vontade de falar - disse ela.
        A notcia me estremeceu. A possibilidade de introduzir no
meu filme aquele depoimento espetacular mudou por completo
a perspectiva dos prximos dias. O problema era que Elosa
no podia assumir o risco de fazer o primeiro contato, nem
teria tempo para tent-lo, porque dois dias depois ia para a
Europa numa viagem de trs meses com o marido.
        Clemencia Isaura, porm, me convocou urgentemente 
sua casa uns dias depois, e me entregou a pista de algum que
a tinha ajudado, a pedido de Elosa, para encontrar o militar
inconformado, que j tnhamos batizado com um nome secreto:
General Eletric. Deu-me um joguinho eletrnico de xadrez,
muito pequeno, com o qual eu deveria ir a partir do dia seguinte
 Igreja de San Francisco, s cinco da tarde.
        No recordo desde quando no entrava numa igreja. Uma
das coisas que me chamou a ateno  que l dentro havia
muitas mulheres e homens lendo livros ou jornais, jogando pacincia,
bordando ou fazendo jogos infantis como o do gato e
rato. S ento entendi porque Elosa tinha me mandado ir com
um joguinho eletrnico de xadrez, que no princpio me pareceu
a coisa menos adequada para passar despercebido dentro de uma
igreja. As pessoas, tal como vi na rua na noite da minha chegada,
eram mudas e taciturnas na penumbra do entardecer. Na
verdade, as pessoas no Chile j eram assim antes da Unidade
Popular. A grande mudana ocorreu quando a candidatura de
Allende ganhou foras e todo mundo viu que podia vencer, e
sua vitria nos transformou de repente num pas diferente:
cantvamos na rua, pintvamos os muros das ruas, fazamos
teatro e mostrvamos filmes na rua, e todo mundo se confundia
em manifestaes de massas onde cada um desafogava seu
jbilo de viver.
Tinha esperado dois dias seguidos jogando xadrez com
meu outro eu uruguaio, quando escutei atrs de mim um sussurro
de mulher. Eu estava sentado, e ela tinha se ajoelhado
atrs de mim, de maneira que me falava quase ao p do ouvido.
        - No olhe nem diga nada - me disse, com voz de confessionrio
-, aprenda de cor o nmero de telefone e a senha
e contra-senha que vou dar, e s saia da igreja quinze minutos
depois de minha sada.
        S quando se levantou e se dirigiu ao altar percebi que
era uma freira muito jovem e muito bonita. A nica coisa que
tive que decorar foi a senha e a contra-senha, porque o nmero
de telefone marquei com os pees no tabuleiro. Supunha-se
que esse era o caminho que me levaria at o General Eletric.
Porm, as cartas pareciam estar lanadas de maneira diferente.
Nos dias seguintes chamei sem falta e com uma ansiedade crescente
o nmero indicado, e sempre obtive a mesma resposta:
"Amanh".


Quem entende a policia?

        Quando eu menos esperava, Jean Claude me surpreendeu
com uma notcia ruim. De acordo com um telegrama da France
Presse, despachado de Santiago na semana anterior e publicado
em Paris, trs membros de uma equipe italiana de cinema que
trabalhava no Chile em condies suspeitas tinham sido detidos
pela polcia quando filmavam sem autorizao na poblacin
de La Legua.
        Franquie achava que tnhamos chegado ao fundo do poo.
Eu tentei enfrentar a coisa com mais calma. Jean Claude no
sabia que havia outras equipes alm da dele trabalhando comigo,
do mesmo jeito que as outras no sabiam que havia uma
equipe francesa, e seu alarma era mais por analogia: se algum
nas mesmas condies que ele tinha sido preso, tambm ele
corria o mesmo risco. Tratei de acalm-lo.
        - No se preocupe - disse a ele -,isto no tem nada
a ver com a gente.
        Assim que ele me deixou sozinho fui procurar os italianos,
e os encontrei sos e salvos onde deveriam estar. Grazia tinha
regressado da Europa e j estava incorporada  equipe.
Entretanto, Ugo me confirmou que a notcia tinha sido publicada
tambm na Itlia, embora a agncia italiana o tivesse
desmentido. O problema  que a falsa notcia se referia a eles
com seus nomes, e tinha sido divulgada com grande rapidez.
Isto no  estranho. Santiago sob a ditadura  um enxame de
rumores. Eles nascem, se reproduzem e se desvanecem com
uma profuso assombrosa vrias vezes ao dia, mas no fundo
tm sempre um fundo de verdade. A notcia sobre os italianos
no foi uma exceo. Tanto se falou dela na noite anterior,
numa recepo na embaixada italiana, que quando os membros
da equipe entraram foram recebidos nada menos que pelo chefe
da Direo Geral de Comunicaes (DINACO), que disse, para
ser ouvido por todos os convidados:
-        Vem? Aqui esto nossos trs prisioneiros.
        Grazia teve a impresso, antes de saber da existncia da
notcia, que estavam sendo seguidos. Finalmente, ao chegar ao
hotel depois da festa na embaixada, pareceu-lhes que algum
havia revirado as malas e os papis de seus quartos, mas nao
faltava nada. Pode ter sido uma iluso provocada pelo sobressalto,
mas tambm podia ser uma batida de advertncia.
Seja como for, havia razes para crer que algo real estava
acontecendo.
        Passei essa noite em claro, escrevendo uma carta ao presidente
da Corte Suprema de Justia, na qual denunciava minha
repatriao clandestina, para t-la pronta no caso de que me
capturassem. No foi uma inspirao sbita, e sim o resultado
de uma lenta reflexo que ia se fazendo mais sufocante na
medida em que o crculo se estreitava. No princpio, eu a concebi
como uma nica frase dramtica, como as mensagens que
os nufragos jogam ao mar dentro de uma garrafa. Mas no
momento de escrev-la percebi que necessitava dar  minha ao
uma justificativa poltica e humana, porque de certo modo devia
expressar o sentimento de milhares e milhares de chilenos que
enfrentavam como eu a peste do desterro. Comecei muitas
vezes, rasguei muitas folhas de arrependimento, trancado num
sombrio quarto de hotel que era afinal um quarto de exilado
dentro de minha prpria terra. Quando terminei, fazia tempo
que os sinos das igrejas chamando para a missa tinham triturado
o silncio do toque de recolher, e as primeiras luzes apareciam
a duras penas atravs das brumas daquele outono inesquecvel.

100



* * *


-9-
NEM MINHA ME ME RECONHECE


        Na verdade havia motivos de sobra para temer que a
polcia tivesse notcias da minha presena no Chile, e do tipo
de trabalho que estvamos fazendo. Estvamos h quase um ms
em Santiago, as equipes tinham sido vistas em pblico mais
do que o conveniente, tnhamos feito contato com muita gente
diferente, e muitas pessoas sabiam que era eu quem dirigia
o filme. Estava to familiarizado com minha nova identidade,
que me esquecia de falar como uruguaio, e na vida real j no
me comportava como um clandestino demasiado rigoroso.
        No comeo, as reunies eram feitas em automveis sem
rumo que costumvamos trocar a cada quatro ou cinco quarteires,
por toda a cidade, e era um mtodo to complicado
que s vezes cometamos erros piores do que os que tratvamos
de evitar. Uma noite, por exemplo, desci de um automvel na
esquina de Providencia e Los Leones, onde deveria apanhar-me
cinco minutos depois um Renault 12 azul, com um carto
da Sociedade Protetora de Animais no pra-brisa. Chegou to
pontual, to Renault 12 e to azul-brilhante, que nem reparei
se levava o letreiro. Subi na parte de trs, onde estava uma
mulher banhada de jias, de idade madura mas ainda muito
bonita, com um perfume provocador e um casaco de vison
rosado que devia custar duas ou trs vezes mais do que o automvel.
Um exemplar inconfundvel, embora no muito comum,
do bairro alto de Santiago. Ao me ver entrar ficou com a boca
aberta de espanto, mas eu me apressei em acalm-la com a
senha e contra-senha:
-        Onde posso comprar um guarda-chuva a esta hora?
O        chofer de uniforme virou-se para mim e latiu:
-        Desa, ou chamo a polcia.
        Percebi com um golpe de vista que o carto com o letreiro
no estava no pra-brisa, e senti no estmago a dor do ridculo.
"Perdo - disse -, me enganei de automvel". Mas a mulher
j tinha recobrado o domnio. Segurou-me pelo brao, apaziguou
o chofer com uma doce voz de soprano.
        - Ser que as Lojas Paris ainda estaro abertas?
perguntou a ele.
        O chofer achava que sim, e portanto ela cismou em me
levar para que eu comprasse o guarda-chuva. Alm de bela era
graciosa e clida, e dava vontade de esquecer por uma noite a
represso, a polcia, a arte, e ficar com ela naquele clima saturado
de sua intimidade. Deixou-me na porta das Lojas Paris, e
ainda pediu desculpas por no me acompanhar na procura do
guarda-chuva, porque estava quase meia hora atrasada para
apanhar seu marido e assistir ao concerto de um pianista de
fama mundial cujo nome esqueci.
        Eram os riscos do costume. Cada vez usvamos menos
frases com cdigos de identificao nos encontros clandestinos.
Ficvamos amigos dos emissrios no primeiro cumprimento, e
no amos direto ao assunto, demorvamos comentando a situao
poltica, falvamos de novidades do cinema e da literatura,
de amigos comuns que eu queria ver apesar das advertncias
que me tinham sido feitas contra essa tentao. Talvez para
sublinhar a inocncia, um emissrio chegou a um encontro com
um de seus filhos, e este me perguntou engolindo a emoao:
"Voc  o que est fazendo um filme sobre Superman?" Assim
comecei a entender que era possvel viver escondido no Chile,
como tantas centenas de exilados que tinham regressado incgnitos
e viviam sua vida cotidiana, sem a tenso que eu sentia
no comeo. Tanto  assim, que se no fosse pelo compromisso
do filme, que no era s com meu pas e meus amigos, mas
tambm comigo mesmo, teria mudado de ofcio e de meio social,
e ficado vivendo em Santiago com minha cara de sempre.
        Mas um mnimo de prudncia obrigava a atuar de outro
modo, frente  suspeita de que a polcia seguia nossos passos.
Ainda estava faltando a filmagem dentro do Palcio de La
Moneda, cuja autorizao sofria adiamentos sucessivos e incompreensveis,
continuava pendente a filmagem de Puerto Montt
e do Vale Central, e a possibilidade inimaginvel de entrevistar
o General Eletric. Por outro lado, a filmagem no Vale Central
eu mesmo queria fazer, por ser a regio onde nasci e vivi at
a adolescncia. Minha me continuava morando l, na pobre
aldeia de Palmilla, mas tinham me advertido terminantemente
que no tentasse v-la nesta viagem por razes elementares de
segurana.
        A primeira coisa que fiz foi reorganizar o trabalho das
equipes estrangeiras, de modo que pudessem terminar com o
mnimo de riscos e o quanto antes, para voltar imediatamente
a seus pases. S os italianos permaneceriam em Santiago, para
nos acompanhar na filmagem de La Moneda. A equipe francesa
voltaria para Paris assim que fosse filmada a "marcha da
fome", anunciada para poucos dias mais tarde.
        A equipe holandesa me esperava em Puerto Montt, para
filmarmos juntos at muito perto do Crculo Polar, e abandonar
depois o pas rumo  Argentina pela passagem fronteiria de
Bariloche. No momento em que sassem as trs equipes, oitenta
por cento do filme teria sido feito, e o material estaria bem
guardado e sendo revelado em Madri. E tinha cumprido uma
tarefa to eficaz, que quando cheguei  Espanha encontrei o
filme pronto para ser montado.


Littn veio, filmou e se foi

        Frente s circunstncias incertas daqueles dias, o mais
aconselhvel parecia ser que Franquie e eu fizssemos uma sada
falsa do pas, para depois entrar de novo com maiores precaues.
A viagem a Puerto Montt me dava uma oportunidade
preciosa, pois era to fcil faz-la pela Argentina quanto pelo
Chile. E assim foi. Pedi  equipe holandesa que me esperasse
l, marquei um encontro para trs dias depois com uma das
equipes chilenas no vale de Colchagua, no centro do pas, e fui
com Franquie de avio para Buenos Aires. Poucas horas antes
telefonei para a revista Anlisis, sem me identificar antecipadamente,
e concedi  jornalista Patricia Colher uma extensa
entrevista sobre minha passagem clandestina por Santiago. Dois
dias depois da minha sada, efetivamente, a entrevista foi publicada
com minha foto na capa, e com um ttulo que tinha uma
gotinha de piada romana: Littin veio, filmou e se foi.
        Para que tudo fosse ainda mais realista, Clemencia Isaura
nos levou _ Franquie e eu _ ao aeroporto de Pudahuel, dirigindo
seu prprio automvel, e nos despediu com beijos e lgrimas
bem teatrais. Foi assim que samos da maneira mais
ostensiva, mas vigiados de perto pelos servios de segurana
da resistncia que dariam o alarma se fssemos presos. Isto nos
permitiu saber, em primeiro lugar, que no estvamos fichados
no aeroporto, e tambm nos permitiu deixar um registro de
sada, para que, no caso de uma investigao tardia, a polcia
acreditasse que tnhamos abandonado o pas.
        Em Buenos Aires me identifiquei com meu passaporte
legtimo, para no cometer um ato ilegal num pas amigo. Porm,
no momento de apresent-lo na alfandega, percebi um
problema imprevisto: a pessoa da foto de meu documento
autntico, feita antes de minha transformao, se parecia muito
pouco comigo. Era difcil reconhecer-me com as sobrancelhas
depiladas, a calvcie mais ampla, os culos de grau. Tinham-me
advertido a tempo, alm disso, que era to difcil assumir uma
personalidade diferente quanto recuperar depois a prpria personalidade,
mas quando eu mais necessitava saber disso esqueci
completamente. Por sorte, o funcionrio em Buenos Aires no
olhou minha cara, e assim sobrevivi ao drama silencioso de no
poder ser eu nem mesmo quando na verdade era.
        Franquie, de Buenos Aires, devia coordenar com Ely por
telefone muitos pormenores do trabalho restante, de acordo
com minhas instrues, e recolher um dinheiro que ela tinha
mandado de Madri para os gastos finais. Por isso nos separamos
ali para encontrar-nos de novo em Santiago. Eu voei para
Mendoza, sempre em territrio argentino, para fazer filmagens
da cordilheira chilena. Foi muito fcil, pois de Mendoza se
passa para o Chile por um tnel sem um controle demasiado
severo. Eu passei a p, sozinho e com uma cmara leve de
dezesseis milmetros, fiz do outro lado o que tinha de fazer, e
retornei em um carro da polcia chilena, cujo motorista ficou
com pena de um pobre jornalista uruguaio que no tinha como
regressar  Argentina.
        De Mendoza segui para Bariloche, outra localidade fronteiria,
mais ao sul. Um barco decrpito, abarrotado de turistas
argentinos, uruguaios, brasileiros e de chilenos que regressavam,
nos levou dali at a fronteira do Chile, atravs de uma
paisagem polar deslumbrante, com imensos precipcios de gelo
e mares tormentosos. O ltimo trecho at Puerto Montt foi
numa barca de vidros quebrados por onde o vento polar se
metia com uivos de lobo, e no havia onde se abrigar do frio
horroroso, nem nada para comer nem beber: nem caf, nem
um copo de vinho, nada. Mas meus clculos foram corretos.
Se minha sada do Chile tinha sido registrada pela polcia do
aeroporto, para essa polcia no seria fcil imaginar que eu
tinha entrado de novo no dia seguinte por um ponto remoto a
mil quilmetros de Santiago.
        Pouco antes de chegar ao posto de controle fronteirio,
um empregado do barco recolheu pelo menos trezentos passaportes,
que foram olhados rapidamente, por alto, depressa
e sem serem carimbados. Menos os passaportes chilenos, que
foram confrontados com a extensa lista dos exilados que no
podiam entrar, e que estava pregada na parede, bem na frente
dos olhos dos funcionrios. Para os outros, e eu entre eles, a
passagem da fronteira transcorria sem tropeos, at que dois
oficiais que no reconheci como carabineros chilenos por sua
roupa polar, mandaram abrir as maletas. Percebi que era uma
revista meticulosa mas no me preocupei, porque estava certo
de no levar nada que no correspondesse  minha falsa identidade.
S que quando abri minha mala saltaram e rodaram
pelo cho as numerosas caixinhas vazias de cigarros "Gitane",
em muitas das quais estavam escritas minhas anotaes de
filmagem.
        Eu tinha chegado ao pas com uma boa proviso de "Gitane"
para dois meses, e no tinha me atrevido a jogar fora as
caixinhas de papelo duro e demasiado notrias no Chile, pelo
medo de deixar um rastro fcil para a polcia. As que eu esvaziava
durante o trabalho eram guardadas no bolso, e depois as
escondia por todo lado, com maior cuidado se tinham notas de
filmagem. Houve um momento em que aquilo parecia um tipo
de ilusionismo, pois havia caixinhas de Gitane vazias em todos
os bolsos da roupa pendurada no armrio, debaixo do colcho
da cama, nas bolsas de viagem, enquanto esperava bolar uma
forma segura de desfazer-me delas. Assim, ca na angstia *?tantlica
dos presos que cavam um tnel para escapar, e no sabem
onde esconder a terra.
        Cada vez que arrumava uma mala para mudar de hotel,
me perguntava o que fazer com tantas caixinhas vazias. No fim
no me ocorreu uma soluo mais fcil que lev-las na mala,
pois se me surpreendiam destruindo-as podia parecer um ato
mais suspeito ainda. Pensava jog-las fora na Argentina, mas
ali as coisas aconteceram com tanta rapidez, que nem mesmo
abri a mala. At que tive de faz-lo na fronteira sul, e vi com
pavor o assombro e a desconfiana dos carabineros quando me
apressei a apanhar no cho o rio de caixinhas de cigarro vazias.
        - Esto vazias - disse eu.
        No acreditaram em mim,  claro. Enquanto o mais jovem
cuidava dos outros passageiros, o mais velho as abriu uma por
uma, examinou-as a torto e a direito, e tratou de decifrar
algumas de minhas anotaes. Tive ento um relmpago de
inspirao.
        - So uns versinhos que eu s vezes fao - disse.
        Ele continuou revirando em silncio, e no final olhou para
a minha cara, para ver se decifrava na minha expresso o mistrio
insondvel das caixinhas vazias.
        - Se quiser, fique com elas - disse eu.
        - E o que fao com isso? - respondeu.
        Ento me ajudou a coloc-las na mala outra vez e cuidou
do passageiro seguinte. Eu fiquei to confuso que no me ocorreu
a idia de jog-las no lixo ali mesmo, na frente dos carabineros,
e continuei arrastando-as comigo pelo resto da viagem.
De regresso a Madri, no deixei que Ely as destrusse. Sentia-me
to ligado a elas, que resolvi guard-las pelo resto da minha
vida, como uma relquia de tantas experincias duras que a
memria poderia ferver em fogo brando nas cozinhas da
nostalgia.


Tire um retrato com o futuro do pas

        Em Puerto Montt me esperava a equipe holandesa. A filmagem
l no foi decidida apenas pela beleza das paisagens
indescritveis, mas tambm pelo significado daquela zona em
nossa histria recente. Tinha sido o cenrio de uma luta constante.
Durante o governo de Eduardo Frei houve ali uma represso
to brutal que os ltimos setores progressistas afastaram-se
do governo. A esquerda democrtica tomou conscincia
de que no apenas seu futuro, mas o do pas inteiro, estava na
unidade, e esse foi o princpio de um rpido e incontrolvel
process que culminou com a eleio de Salvador Allende.
        Terminada a filmagem em Puerto Montt, e com ela todo
o programa do sui, a equipe holandesa saiu por Bariloche rumo
a Buenos Aires com boa quantidade do material filmado, para
deix-lo com Ely em Madri. Eu fui sozinho a Talca em uma
boa noite de trem, na qual no ocorreu nada digno de ser lembrado,
 exceo do frango assado que regressou so e salvo
 cozinha, pois no consegui nem ao menos arranhar sua couraa
blindada. Em Talca aluguei um automvel e fui a San Fernando,
no corao do vale de Colchagua.
        Na Plaza de Armas no havia um lugar, uma rvore, uma
pedra dos muros que no me fizesse recordar minha infncia.
Mais que tudo,  claro, o vetusto edifcio do Liceu, onde fiz
minhas primeiras leituras. Sentei-me num degrau para tirar
umas fotos que depois me serviram para o filme. A praa ia se
enchendo pouco a pouco com o alvoroo dos meninos que
entravam na escola. Alguns posavam para a cmara, outros
tentavam pr a palma da mo na frente da objetiva, uma menina
deu um passo de dana to profissional que pedi que o repetisse
para fazer a foto com um fundo mais adequado. De repente,
vrias crianas se sentaram ao meu lado e me disseram:
-        Tire um retrato com o futuro do pas.
        A frase me surpreendeu, porque respondia a uma que eu
tinha anotado numa das tantas caixinhas de "Gitane" vazias:
Eu diria que  quase impossvel encontrar algum no Chile
que no tenha uma idia do futuro. Principalmente as crianas
de uma gerao que no tinha conhecido um pas diferente, e
mesmo assim tinham uma convico prpria de seu destino.
        Estava combinado com a equipe chilena que nos encontraramos
s onze e meia da manh na ponte dos Maquis. Cheguei
pontualmente pelo lado direito, e vi as cmaras instaladas
na margem oposta. Era uma manh limpa, perfumada pelo
caminho das penses, e eu me sentia seguro e menos exilado
que nunca em minha terra natal, pois tinha tirado a gravata
e o terno ingls de meu outro eu, e tornei a ser eu mesmo, com
bluso e calas jeans. A sombra da barba dos dois dias de viagem
desde Buenos Aires, que eu tinha tido o prazer de no
raspar, era um dado a mais em minha identidade recuperada.
        Quando percebi que o cinegrafista tinha me visto atravs
do visor, desci do automvel, atravessei a ponte muito devagar
para dar tempo que ele me filmasse, e depois cumprimentei a
todos, um por um, estimulado por seu entusiasmo e sua maturidade
precoce. Eram de idades inacreditveis: quinze, dezessete,
dezenove anos. Ricardo, o mais velho, que dirigia a equipe,
tinha vinte e um anos e os outros o chamavam de "O Velho".
Nada me alentou tanto nesses dias como ter ganho a sua
cumplicidade.
        Ali mesmo, sobre a balaustrada da ponte, fizemos o programa
de filmagem, e comeamos imediatamente. Devo reconhecer
que meus motivos desse dia se afastavam um pouco do
propsito inicial, e na verdade iam se arrastando atrs das
lembranas de minha infncia. Por isso comecei com as imagens
daquela ponte de minhas saudades, onde um bando de primas
alvoroadas me empurraram na gua, aos doze anos, para que
eu aprendesse a nadar  fora.
        Mas ao longo da jornada, a razo original da viagem tornou
a se impor. O vale de San Fernando  uma vasta zona
agrcola onde, durante o governo da Unidade Popular, os camponeses
reduzidos  condio secular de servos se transformaram
pela primeira vez em indivduos com direitos. Antes foi
uma fortaleza da oligarquia feudal, que decidia as eleies com
votos cativos de seus vassalos. Durante o governo democrata
cristo de Eduardo Frei, organizou-se ali a primeira greve camponesa
grande, com a participao de Salvador Allende em pessoa.
Depois foi ele, j no governo, quem despojou de seus
privilgios desmedidos os senhores da terra, e organizou os
camponeses em comunidades ativas e solidrias. Agora, como
um smbolo do retrocesso, no Vale Central est a casa de veraneio
de Pinochet.
        Eu no podia ir embora do lugar sem levar em mim a
imagem da esttua de Dom Nicols Palacio, autor de La Raza
Chilena, um livro inslito que pretende que os chilenos autnticos,
anteriores s grandes migraes - a basca, a italiana, a
rabe, a francesa, a alem -, so descendentes dirtos dos
helenos da Grcia clssica, e esto portanto determinados e
marcados pelo destino para ser a fora hegemnica da Amrica
Latina, e para mostrar o caminho da verdade e da salvao do
mundo. Eu nasci muito perto de l, e durante toda a infncia
me acostumei a ver a esttua vrias vezes ao dia quando passava
para ir  escola, mas ningum nunca soube explicar-me de
quem era. Pinochet, admirador mximo de Dom Nicols Palacio,
resgatou-o agora de seu limbo histrico com outro
monumento erguido no corao de Santiago.
        Terminamos a jornada ao anoitecer, com o tempo exato
para percorrer os cento e quarenta quilmetros e chegar a Santiago
antes do toque de recolher. A equipe, menos Ricardo, foi
em linha reta. Ricardo ficou comigo no volante do automvel,
e demos uma longa volta at o mar, marcando os lugares para
filmar no dia seguinte, e ficamos to embebidos em nosso trabalho
que passamos quatro barreiras policiais sem o menor
sobressalto. Depois da primeira, porm, tive a precauo de
tirar minha roupa informal de Miguel Littn, diretor de cinema,
e tornei a pr minha identidade de uruguaio. No percebemos
em que momento deu meia-noite. Descobrimos de repente -
meia hora depois do toque de recolher - e vivemos um instante
de pavor. Ento eu disse a Ricardo que sasse da estrada
principal. Metemo-nos num caminho de terra que eu recordava
como se o tivesse percorrido no dia anterior, e disse a ele que
virasse  esquerda, que passasse a ponte, que dobrasse  direita
por uma viela invisvel onde se ouvia o rumor dos animais
acordados na escurido, que apagasse as luzes e continuasse por
um caminho sem asfalto, de curvas profundas e descidas abruptas,
e no final do labirinto atravessamos uma aldeia adormecida
cujos ces alvoroaram todos os animais nos quintais, e do
outro lado da aldeia paramos na frente da casa de minha me.
        Ricardo no acreditou, no acredita at agora, que aquilo
no fosse um plano premeditado. Juro que no foi. A verdade
 que quando compreendi que estvamos violando o toque de
recolher, a nica idia que tive foi esconder-nos num atalho
at o amanhecer, pois faltavam ainda quatro barreiras de carabineros
at Santiago. S quando abandonamos a estrada reconheci
o caminho de terra da minha infncia, os latidos dos ces
do outro lado da ponte, o cheiro de cinza dos foges apagados,
e no pude reprimir o impulso irrefletido de fazer uma surpresa
 minha me.


Voc deve ser um amigo de meus filhos

        A aldeia de Palmilla, com seus quatrocentos habitantes,
continua sendo igual  de quando eu era menino. Meu av
paterno - um palestino nascido em Beith Sagur - e meu
av materno - o grego Cristos Cucumides - chegaram entre
os primeiros de uma onda migratria que se instalou desde princpios
do sculo ao redor da estao da estrada de ferro. A
nica importncia que Palmilla tinha naquele tempo era que
ali terminava a linha de trem que comunicava Santiago com a
costa. Portanto, ali os passageiros faziam baldeao e eram descarregados
os produtos que vinham do mar ou iam para o mar,
e isto tinha fomentado um comrcio de passagem que deu ao
lugar uma prosperidade momentnea. Depois, quando se prolongou
a estrada de ferro at o mar, a estao se manteve como
uma parada obrigatria para pr gua nas locomotivas, durante
dez minutos que muitas vezes se prolongavam at virar um
dia inteiro, e os trens passavam apitando pela casa de Matilde
- minha av rabe - para anunciar a chegada. Mas a aldeia
nunca foi nada mais do que  agora: uma rua longa com algumas
casas dispersas e um caminho com menos casas que a rua.
Mais abaixo h um lugar que se chama La Calera, famoso porque
cada famlia fabrica um vinho excelente que  dado para
todo mundo que passa provar, para que cada um diga qual  o
melhor. Foi assim que La Calera se converteu numa poca no
paraso dos bbados de todo o pas.
        Matilde levou a Palmilla as primeiras revistas ilustradas,
pelas quais sempre teve uma afeio insacivel, e emprestava
a horta da frente da casa para os circos, os teatros ambulantes
e os marioneteiros. Foi ali onde se projetavam tambm os
poucos filmes que passavam de vez em quando por aquelas
quebradas, e onde me foi revelada a vocao desde que vi o
primeiro, aos cinco anos, sentado nos joelhos de minha avo.
Era Genoveva de Bravante, e a lembrana que conservo do
filme  na verdade de pavor, pois haveria de passar muito
tempo antes que eu entendesse como  que galopavam os cavalos
e surgiam aquelas caras enormes num lenol pendurado no
meio das rvores.
        A casa onde Ricardo e eu chegamos naquela noite era a do
av grego, onde vive agora minha me, Cristina Cucumides, e
onde vivi at a adolescncia. Foi construda no ano zero, e ainda
conserva o estilo tradicional do campo chileno, com corredores
longos, passagens sombrias, quartos labirnticos, cozinhas enormes
e, l longe, o estbulo e os potreiros. O lugar onde est
se chama Los Naranjos, e sente-se de verdade um cheiro imvel
de laranja amarga, e h uma cerca de buganvlias e todo tipo
de flores luminosas.
        A emoo de me encontrar ali foi to intensa, que desci
antes que o carro parasse. Entrei pelos corredores desertos,
atravessei o ptio em sombras, e a nica coisa que saiu para me
receber foi um cachorro boboca que se enredou entre as minhas
pernas, mas continuei caminhando sem perceber o menor vestgio
humano. A cada passo resgatava uma lembrana, alguma
hora da tarde, um aroma esquecido. No final de um longo
corredor apareci na porta da sala iluminada levemente por uma
luz plida, e ali estava minha mae.
        Foi uma viso muito estranha. A sala  muito grande, de
tetos altos e paredes lisas, e no havia outros mveis alm de
uma poltrona onde estava sentada minha me, de costas para a
porta e com um braseiro ao seu lado, e outra poltrona igual
onde estava sentado o irmo dela, meu tio Pablo. Permaneciam
em silncio, os dois olhando um mesmo ponto com a candura
benvola com que estariam olhando a televiso, mas na verdade
no olhavam nada alm da parede nua. Caminhei at eles sem
tentar evitar o rudo, e como no se mexiam, disse:
        - Bem, mas aqui ningum cumprimenta ningum,
porra?
        Ento minha me se levantou.
        - Voc deve ser um amigo de meus filhos - disse. -
Deixe-me abra-lo.
        Tio Pablo no me via desde que fui embora do Chile, doze
anos antes, e nem ao menos se moveu em sua poltrona. Minha
me tinha me visto em Madri em setembro do ano anterior,
mas mesmo quando se levantou para me abraar continuava
sem me reconhecer. Agarrei-a pelos braos e sacudi-a tentando
tir-la do estupor.
        -        Mas olhe bem para mim, Cristina - disse, olhando
seus olhos -, sou eu.
        Ela tornou a me olhar com outros olhos mas no conseguiu
me identificar.
        -        No - disse -, no sei quem voc .
        -        Mas como voc no me reconhece? - disse, morrendo
de rir -, sou teu filho, Miguel.
        Ento tornou a me olhar, e seu rosto se desmanchou com
uma palidez mortal.
        -        Ai - disse -, vou desmaiar.
        Tive que segur-la para que no casse, enquanto o tio
Pablo se levantava no mesmo estado de comoo.
        -         a ltima coisa que eu esperava ver - disse ele -,
j posso morrer em paz agora mesmo.
        Precipitei-me para abra-lo. Parecia um passarinho, com
a cabea muito branca e enrolado num cobertor de velho, apesar
de s ser mais velho que eu cinco anos. Casou-se e separou-se
uma vez, e desde ento foi morar na casa de minha me. Sempre
foi muito solitrio e j parecia velho desde menino.
        -        No enche o saco, tio - disse -, no me faa a
babaquice de morrer agora. Traga uma garrafa de vinho para
celebrar o regresso.
        Minha me nos interrompeu, como sempre, com uma
revelao sobrenatural.
        -        Tenho um mastul pronto - disse.
        No acreditei at ver o mastul na cozinha. E no era
para menos. O mastul s  preparado nas casas gregas para
celebrar as grandes ocasies, pois sua elaborao  muito dispendiosa.
 um ensopado de cordeiro, com gro-de-bico e bolinhas
de semolina, semelhante ao cuscuz rabe, e era o primeiro
que minha me preparava naquele ano, sem nenhum motivo.
Por pura inspirao.
        Ricardo comeu conosco e em seguida foi dormir, sem dvida
para deixar-nos na mais completa intimidade. Pouco depois
meu tio se retirou e minha me e eu continuamos conversando
at o amanhecer. Sempre fomos de muito falar, como
amigos, porque nossas idades no so muito diferentes. Ela se
casou com meu pai aos dezesseis anos e me teve um ano depois,
de maneira que recordo muito bem como era quando tinha
vinte anos, muito bonita e juvenil, e brincava comigo como se
eu no fosse um menino e sim mais uma de suas bonecas de
pano.
        Estava radiante com meu regresso, mas um pouco desconcertada com
meu novo modo de vestir, pois sempre gostou
de me ver com meus trajes de estivador. "Voc parece um
padre", me disse. No revelei a razo da minha mudana, nem
as condies e o motivo de minha entrada no Chile, que ela
supunha legal. Preferi mant-la  margem da minha aventura, para no
inquiet-la,  claro, mas sobretudo para no compromet-la.
        Antes que comeasse a clarear ela me levou pela mo atravs do
quintal sem me dizer para que, e me deu a grande surpresa da viagem.
No fundo do quintal estava o estdio que eu tinha em minha casa de
Santiago quando escapei para o exlio, tal como o deixei, e com tudo que
tinha dentro.
        Depois que os militares invadiram a casa pela ltima vez
e tive que ir para o Mxico junto com Ely e as crianas, minha
me contratou um arquiteto amigo e desarmou o estdio tbua
por tbua, e o reconstruiu idntico na velha casa da famlia em
Palmilla. Por dentro era como se eu no tivesse ido embora
nunca. No mesmo lugar em que eu havia deixado, e at mesmo
na mesma desordem, estavam meus papis da vida inteira,
obras juvenis de teatro, projetos de roteiros, esquemas de
palcos. O ar tinha a mesma cor, o mesmo aroma, e at pensei
que era a mesma data e a mesma hora que eu tinha visto o
estdio pela ltima vez. Sacudiu-me um tremor muito fundo,
porque naquele instante no pude saber exatamente se minha
me tinha feito aquela reconstruo meticulosa para que eu
no sentisse falta da minha casa de antes, se regressasse algum
dia, ou para recordar-me melhor se eu morresse no exlio.



114

- 10 -

FINAL FELIZ COM A AJUDA
DA POLICIA



        Desta vez o regresso a Santiago foi a volta  angstia. Era
quase palpvel a impresso de que o crculo se fechava cada vez
mais ao nosso redor. A "marcha da fome" tinha sido reprimida
com uma brutalidade sangrenta, e a polcia tinha batido em
alguns membros de nossas equipes e destrudo uma cmara.
As pessoas que freqentvamos por causa do nosso trabalho
tinham a impresso de que ningum havia acreditado na manobra
de sada, e at Clemencia Isaura estava convencida de que
tnhamos nos metido, como santos inocentes, na cova dos lees.
As tentativas para encontrar o general dissidente estavam bloqueadas
pela eterna resposta: "Chame amanh outra vez". Esse
era o estado de alma imperante quando a equipe italiana foi
informada de que a filmagem no interior do La Moneda estava
autorizada para o dia seguinte, s onze da manh.
        Era impossvel no acreditar que se tratava de uma armadilha
mortal. Eu estava disposto a correr o risco, mas era uma
responsabilidade muito grande mandar os italianos entrar nas
dependncias presidenciais sem saber se isso no seria met-los
numa ratoeira. Eles, porm, aceitaram faz-lo sob sua responsabilidade
e com plena conscincia do risco. A equipe francesa,
por sua vez, no tinha porque ficar mais tempo em Santiago.
Assim, reuni seus integrantes com urgncia e mandei-os sair do
Chile no primeiro avio, levando todo o material filmado que
faltava enviar a Madri. Foram embora naquela mesma tarde,
na hora exata em que a equipe italiana, dirigida por mim, filmava
no gabinete do general Pinochet.
        Antes de ir a La Moneda entreguei a Franquie a carta para
a Corte Suprema de Justia, que levava na pasta havia vrios
dias sem me decidir a envi-la, e pedi que a entregasse imediata
e pessoalmente, o que ele realmente fez. Tambm deixei os
nmeros de telefones que Elena tinha dado para casos de emergncia
grave. Faltavam quinze para as onze quando ele me deixou numa esquina da
Rua Providncia, onde me reuni com a equipe italiana completa, e
seguimos todos juntos at o Palcio de La Moneda. O paradoxo final foi
que desta vez eu tinha me despojado do disfarce de publicitrio uruguaio,
e vesti minhas calas jeans e meu bluso forrado por dentro com pele
de coelho. Foi uma deciso de ltima hora, porque os antecedentes de
Grazia, como jornalista, os de Ugo como cinegrafista e os de Guido como
operador de som tinham sido investigados a fundo pelas autoridades. De
seus ajudantes, em compensao, ningum pediu nem a identidade, apesar
de seus nomes tambm estarem no pedido de autorizao. Isso resolveu
minha situao: entrei como ajudante de iluminao, carregado de cabos,
fios e refletores.
        Filmamos dois dias completos com toda tranqilidade e
boa tcnica, guiados por trs oficiais jovens, muito amveis,
que se revezavam para nos atender. Indagamos tudo o que
tinha a ver com a restaurao, pois Grazia tinha-se preparado
muito bem sobre Toesca e a arquitetura italiana no Chile, para
que ningum duvidasse que era esse e s esse o motivo do
filme. Mas tambm os militares estavam bem preparados. Contavam-nos
com muita segurana o significado e a histria de
cada cmodo do palcio, e a forma em que foi restaurado em
relao ao edifcio anterior, mas davam evasivas e faziam
circunlquios prodigiosos para no se referir ao 11 de setembro
de 1973. A verdade  que a restaurao foi feita com grande
fidelidade ao projeto original. Taparam algumas portas, abriram
outras, derrubaram paredes, mudaram tabiques de lugar,
e eliminaram a entrada da Rua Morand, 80, por onde os presidentes
recebiam visitas pessoais. Foram tantas as mudanas,
que algum que tivesse conhecido o palcio antigo no saberia
se orientar neste novo.
        Os oficiais que nos atendiam passaram um mau bocado
quando pedimos que nos mostrassem o exemplar original da
Ata de Independncia que esteve exposto durante anos na sala
do Conselho de Ministros, e que sabamos que tinha sido destrudo
no bombardeio. Nunca admitiram isso, e nos prometiam
conseguir mais tarde uma autorizao especial de filmagem, e
deixavam sempre para depois e depois, at que terminamos o
trabalho. Tampouco puderam nos dizer onde estava a escrivaninha
de Dom Diego Portales, e tantas relquias que os presidentes
anteriores tinham ido deixando ao longo dos anos para
um pequeno museu histrico que foi arrasado pelas chamas.
Talvez os bustos de todos os presidentes desde O'Higgins tenham
tido a mesma sorte, embora seja comum a verso de que
o governo militar tenha retirado todos da galeria onde sempre
estiveram para no se ver na obrigao de pr ali o de Salvador
Allende. Em geral, a impresso que se tem, depois de percorrer
o palcio inteiro,  que tudo foi totalmente mudado com o
nico propsito de apagar at o ltimo vestgio do presidente
assassinado.
        No segundo dia no La Moneda, l pelas onze da manh,
percebemos de repente uma agitao invisvel no ar e sentimos
rudos apressados de botas e ferros marciais. O oficial que nos
acompanhava sofreu de repente uma sbita mudana de humor,
e ordenou-nos com um gesto brutal apagar as luzes e parar as
cmaras. Dois guarda-costas vestidos  paisana se plantaram sem
dissimular na nossa frente, dispostos a impedir que tentssemos
continuar filmando. No percebemos o que acontecia, at
que vimos passar o general Augusto Prnochet em pessoa, verde
e inchado, caminhando at seu escritrio com um ajudante militar
e dois civis. Foi uma viso instantnea que no nos deu tempo
para nada. Mas ele passou to perto de ns, sem olhar-nos,
que ouvimos com toda clareza o que disse ao passar:
        - Nas mulheres no se deve acreditar nem quando dizem
a verdade.
        Ugo ficou petrificado, com o dedo tenso no gatilho da
cmara, como se estivesse vendo passar seu destino. "Se algum
tivesse ido l para mat-lo" _ disse mais tarde _, "teria sido
muito fcil". Embora ainda tivssemos trs horas de trabalho
pela frente, nenhum de ns sentiu-se com nimo de continuar
filmando naquele dia.


Um louco no restaurante

        Assim que terminamos o assunto La Moneda, a equipe
italiana saiu do pas com o material restante sem nenhum contratempo.
Completamos, assim, trinta e dois mil e duzentos
metros de filme. A verso final, depois de seis meses de edio
em Madri, ficou reduzida a quatro horas para televiso e duas
para cinema.
        Embora o programa original tivesse terminado, Franquie
e eu ficamos mais quatro dias, com a esperana de conseguir o
contato com o General Eletric. Durante dois dias fui de seis
em seis horas a um mesmo caf, tal como tinham me indicado
por telefone. Sentava-me, esperava sem pressa, lendo uma vez
mais o exemplar de Los Pasos Perdidos que me servia de amuleto
para voar. O contato esperado, uma garota angelical de
vinte anos com o uniforme da afrescalhada escola La Maisonette,
chegou na penltima vez, e me deu as pistas para o passo
seguinte: o conhecido Restaurante Chez Henri, em Portales,
onde eu deveria estar essa mesma tarde s seis com um exemplar
do El Mercurio e uma revista em quadrinhos.
        Cheguei um pouco atrasado porque o txi ficou no engarrafamento
da manifestao de um novo movimento de resistncia
pacfica contra a ditadura, surgido na poca do sacrifcio
de fogo de Sebastin Acevedo em Concepcin. Enquanto os
carros da polcia tentavam dispers-los com jatos de gua de
alta presso, mais de duzentos manifestantes ensopados at a
medula permaneciam impassveis contra o muro, cantando hinos
de amor. Ainda comovido por aquela manifestao sublime,
me sentei num banquinho para ler a pgina editorial do El
Mercurio, como a colegial tinha me indicado,  espera de que
algum se aproximasse para me perguntar: "O senhor se interessa
muito pelas pginas editoriais?" Eu deveria responder
que sim. O outro devia me perguntar por que, e eu deveria
responder: "Porque trazem informao de tipo econmico que
interessa muito para a minha profisso". Em seguida sairia do
restaurante e encontraria um automvel me esperando na porta.
        Tinha lido trs vezes as pginas editoriais completas,
quando algum passou atrs de mim e me deu uma batidinha
com o cotovelo nos rins. Falei para meus botes: " este".
Olhei. Era um homem de uns trinta anos, lento e de costas
macias, que continuou direto at o banheiro. Pensei que seu
sinal teria querido dizer que o seguisse at l, mas no fui,
pois faltava a senha. Continuei vigiando o banheiro, at que
regressou por onde tinha passado antes e me deu outra batidinha
igual  primeira. Ento virei, e vi seu rosto. Tinha um
nariz de couve-flor, os lbios como chourio, as sobrancelhas
partidas.
        _ Oi _ me disse. _ Como vai?
        __ Bem, muito bem __, respondi.
        Sentou-se no banquinho ao meu lado e me falou com
muita familiaridade.
        _ Lembra de mim?
        _        Claro, homem _ respondi para seguir a corrente
_ como no?
        Continuamos assim uns minutos, e eu mostrava o jornal
de maneira ostensiva para que ele recordasse a senha. Mas ele
no se deu conta. Continuou ao meu lado, olhando para mim.
        _        Bem _ disse ele _, porque no me paga um caf?
        _        Ora, com muito prazer.
        Pedi dois cafs ao garom, mas ele s serviu um no balco.
        _        Pedi dois _ disse. _ Um para este senhor.
        _ Ah, sim _ respondeu o garom _, vamos servir
j, j.
        _ Mas por que no serve agora?
        _ Sim, j vamos servir.
        Mas no serviu. O mais curioso  que o homem parecia
no se importar, e a extravagncia da situao aumentou meu
nervosismo. Ps uma mo em meu ombro e disse:
        _ Parece que o senhor no se lembra de mim, hein?
        Nesse momento tomei a deciso de ir embora.
        _ Olha, para ser franco, no lembro.
        Ele tirou da carteira um recorte de jornal manuseado e
amarelado, e colocou-o na frente dos meus olhos.
        _ Eu sou este _ disse.
        Ento reconheci. Era um antigo campeo de boxe, muito
conhecido na cidade, mais por seu desequilbrio mental que
por suas glrias passadas. Disposto a ir embora antes de virar
centro de atenes, pedi a conta.
        _ E meu caf? _ disse ele.
        _ V tom-lo em outro lugar _ respondi. _ Posso lhe
dar o dinheiro.
        _ Que negocio e esse de me dar o dinheiro? _ disse
ele. _ O senhor acha que porque me nocautearam estou to
fodido que no tenho mais dignidade? No me venha com essa
babaquice!
        Gritava de tal maneira que todos os olhares do local se
viraram para ns. Ento agarrei seu tremendo pulso de boxeador
e apertei-o com estas mos de lenhador que por sorte
herdei de meu pai.
        _ O senhor fique tranqilo, entende? _ disse olhando-o
nos olhos. _ Nenhuma palavra mais!
        Tive sorte, porque acalmou-se com a mesma rapidez com
que tinha se exaltado. Paguei depressa, sa na noite glacial e
fui para o hotel no primeiro txi. Na recepo encontrei uma
mensagem urgente de Franquie: Levei sua bagagem para o 727.
No era preciso nada mais: o 727 era o nome secreto que Franquie
e eu tnhamos dado  casa de Clemencia Isaura, e o fato
de que ele tivesse levado minha bagagem para l depois de
abandonar o hotel voando, era um indcio definitivo de que o
crculo tinha acabado de se fechar. Sa disparado para l, mudando
de txi e de sentido cada vez que achava que devia, e
encontrei Clemencia Isaura em seu estado de placidez imortal,
vendo um filme de Hitchcock na televiso.


Ou vai embora ou mergulha

        O recado que Franquie deixou com ela era muito explcito.
Naquela tarde tinha chegado um par de agentes  paisana perguntando
por ns no hotel. Examinaram e copiaram nossas
fichas de registro. O porteiro contou isso a Franquie, que fingiu
no dar nenhuma importncia a uma coisa que podia muito bem
ser rotineira no estado de stio. Pagou os quartos sem demonstrar
nenhuma inquietao, pediu ao porteiro que chamasse um
txi para ir ao aeroporto internacional, e despediu-se com um
aperto de mo e uma gorjeta inesquecvel. Mas o porteiro no
engoliu a isca. "Posso conseguir para vocs um hotel onde no
os encontraro nunca", disse. Franquie,  claro, achou melhor
bancar o desentendido.
        Clemencia Isaura tinha um quarto pronto para mim, e
mandara a criada e o chofer sarem para que no houvesse
ouvidos nas paredes nem olhos nos espelhos. Enquanto me
esperava, tinha preparado um jantar esplndido, com velas,
vinhos de alta classe e sonatas de Brahms, seu autor favorito.
Esticamos a conversa da sobremesa at muito tarde, com ela
chafurdando no pntano de suas frustraes tardias. No se
resignava  realidade de ter perdido a vida criando filhos para
os momios, jogando canastra com matronas imbecis, para terminar
tecendo meias de l na frente das lacrimej antes novelas
da televiso. Aos setenta e dois anos descobria que sua verdadeira
vocao tinha sido a luta armada, a conspirao, a embriaguez
da ao intrpida.
        - Para morrer numa cama com os rins podres - disse
ela - prefiro que me picotem a tiros num combate de rua
com os milicos.
        Franquie chegou na manh seguinte com um automvel
alugado, diferente do que tnhamos nos dias anteriores. Trazia
um recado categrico recebido por trs caminhos diferentes:
"Ou vai embora ou mergulha". Mergulhar, que equivalia a
me esconder sem continuar a trabalhar, era um opo impensvel.
Franquie concordava e tinha conseguido os dois nicos
lugares disponveis no avio que saa naquela tarde para Montevidu.
        Era o ato final. Na noite anterior tinha desfeito a primeira
equipe chilena, com instrues para que esta desfizesse
as outras duas, e entregou a um emissrio da resistncia as
trs ltimas latas de filmes expostos para que fossem tiradas
do pas o mais cedo possvel. Foi to bem feito que quando
chegamos a Madri, cinco dias mais tarde, Ely j tinha recebido
tudo. As latas de filme haviam sido levadas ' nossa casa
por uma freira muito jovem e encantadora, idntica a Santa
Terezinha de Jesus, que no quis ficar para o almoo porque
tinha que cumprir naquela manh outras trs misses secretas
antes de regressar ao Chile naquela mesma noite. H pouco
descobri, por uma casualidade incrvel, que era a mesma freira
que tinha me servido de contato na igreja de San Francisco
em Santiago.
        Eu me negava a ir embora enquanto existisse uma possibilidade
de entrevistar o General Eletric. O contato tinha tornado
a se perder no restaurante, mas enquanto tomvamos o
caf da manh em casa de Clemencia Isaura, fiz um novo telefonema,
e a mesma voz feminina de sempre me pediu que ligasse
outra vez duas horas mais tarde para uma resposta definitiva:
sim ou no. Ento decidi que se conseguisse o contato
um minuto antes de que o avio sasse, ficaria em Santiago
sem pensar no risco. Seno, iria para Montevidu. Resolvi encarar
a entrevista como uma questo de honra, e me doa na
alma no arrematar com ela minhas seis semanas de graas e
desgraas no Chile.
        O segundo telefonema teve o mesmo resultado: era preciso
repet-lo outra vez dentro de duas horas. Clemencia Isaura
cismou de dar-nos um revlver de bandoleiro que seu marido
manteve sempre debaixo do travesseiro para espantar ladres,
mas conseguimos convenc-la de que seria uma imprudncia.
Despediu-nos banhada em lgrimas, e no creio que fosse
tanto pelo afeto real que sentia por ns, mas pela dor de ficar
sem a emoo de novas aventuras. A rigor, ali ficou meu outro
eu. Tirei as coisas pessoais indispensveis, coloquei-as numa
pequena maleta de mo, e deixei para Clemencia Isaura a mala
de rodinhas com os ternos ingleses, as camisas de linho com
monogramas alheios, as gravatas italianas pintadas  mo, a
suntuosa parafernlia de salo do homem que eu mais havia
detestado na vida. A nica coisa que conservei dele foi a roupa
que vestia, e que esqueci de propsito trs dias depois num
hotel do Rio de Janeiro.
        As duas horas seguintes foram gastas comprando presentes
chilenos para meus filhos e para os amigos do exlio. De
um caf vizinho  Plaza de Armas telefonei pela terceira vez
e obtive a mesma resposta: tornar a ligar dentro de duas horas.
Mas ento no me atendeu a mulher, e sim um homem que
deu a senha e a contra-senha correta, e me advertiu que se
na prxima vez no tivessem estabelecido contato seria impossvel
faz-lo antes de duas semanas. Foi deste jeito que fomos
para o aeroporto, para telefonar de l pela ltima vez.
        O trnsito estava interrompido por causa de obras em
vrios lugares, a sinalizao era confusa e os desvios numerosos
e complicados. Franquie eu conhecamos muito bem o caminho
do velho aeroporto de Los Cerrillos, mas no o de Pudahuel,
e sem saber como, nos vimos perdidos num denso subrbio
industrial. Demos muitas voltas, buscando uma sada
para qualquer lugar, e no percebemos que andvamos na contra-mo
at que uma radiopatrulha atravessou o caminho na
nossa frente.
        Desci do carro e decidi dribl-los. Franquie, enquanto
isso, afogou-os com o manancial de sua incontrolvel lbia florida,
sem dar a eles um respiro para conceber nenhuma suspeita.
Contou-lhes apressadamente o fabuloso contrato que
tnhamos vindo assinar com o Ministrio de Comunicaes
para estabelecer no Chile uma rede nacional de controle de
trnsito por satlite, e explicou-lhes o risco dramtico de que
o projeto inteiro fracassasse se no pegssemos dentro de meia
hora o avio para Montevidu. No fim estvamos todos to
enrolados tentando estabelecer uma rota possvel para retomar
a estrada do aeroporto, que os dois carabineros subiram pulando
na viatura e nos mandaram segu-los.


Dois penetras em busca de autor

        Foi assim que chegamos ao aeroporto com o caminho varrido
pelas sirenas alarmantes e os relmpagos vermelhos do
automvel da polcia disparado a mais de cem por hora. Franquie
correu at o balco da Hertz para entregar o carro alugado.
Eu corri para o telefone, disquei o mesmo nmero pela quarta vez nesse
dia, e estava ocupado. Insisti duas vezes mais,
e na terceira consegui, mas perdi um tempo -precioso porque
a mulher que atendeu no identificou a senha e desligou indignada.
Tornei a ligar e ento atendeu a mesma voz de homem
das vezes anteriores, pausada e terna, mas sem nenhuma esperana.
Tal como tinha me advertido, no havia esperana antes
de duas semanas. Quando desliguei, furioso e desiludido, faltava
meia hora para a sada do avio.
        Estava combinado com Franquie que eu passaria a alfndega,
enquanto ele terminava de acertar as contas na Hertz,
de maneira que pudesse escapar e dar o alarma para a Corte
Suprema de Justia se me prendessem na sada. Mas na ltima
hora resolvi esper-lo na entrada da alfndega. Demorava mais
do que o normal, e na medida em que o tempo passava eu
ficava mais evidente com minha maleta de executivo e duas
malas de viagem, alm dos pacotes de presente. Pelos altofalantes,
uma voz de mulher que me pareceu mais nervosa que
eu, fez a ltima chamada dos passageiros do vo para Montevidu.
'Cheio de pnico, dei a um carregador a maleta de Franquie
e uma nota gorda, e disse:
        - Leve esta maleta ao balco da Hertz, e diga ao senhor
que est pagando que eu fui para o avio, e que venha j.
        -V o senhor mesmo-medisse ele -,ser mais
fcil.
        Ento me dirigi a uma funcionria da companhia area
que controlava a entrada dos passageiros.
        -        Por favor - disse a ela -, espere dois minutos enquanto
procuro meu amigo que est pagando o automvel.
        -        Faltam s quinze minutos - disse ela.
        Corri at o balco sem me preocupar com as aparncias.
A angstia tinha feito com que eu perdesse a parcimoniosa
compostura de meu outro eu, e tinha tornado a ser o cineasta
impulsivo que sempre fui. Muitas horas de estudo, de previses
milimtricas, de ensaios minuciosos, tinham ido para o
diabo em dois minutos. Encontrei Franquie muito calmo, discutindo
com o funcionrio da Hertz a taxa de cmbio.
        -        Caralho! - disse a ele. - Pague o que for, e te
espero no aviao. Temos cinco minutos.
        Fiz um esforo supremo para me acalmar, e enfrentei o
controle migratrio. O agente folheou o passaporte e me olhou
fixo nos olhos: Eu olhei igual, depois olhou a foto e tornou a
me olhar, e eu mantive meu olhar.
        -        Para Montevidu? - perguntou.
        -        Para comer a comidinha de mame - respondi.
        Olhou o relgio eletrnico na parede e disse: "Montevidu
j saiu". Insisti que no, e ele falou com a empregada da
Lan-Chile, que confirmou que estavam esperando por ns para
fechar o vo. Faltavam dois minutos.
        O        funcionrio carimbou o passaporte e devolveu-o sorrindo.
        -        Boa viagem.
Mal tinha terminado de passar o controle, quando me
chamaram pelo alto-falante, com meu nome falso a todo volume.
Pensei que era o fim, e cheguei a imagin-lo como uma
coisa que at aquele momento s podia acontecer com os
outros, mas que agora estava acontecendo comigo, sem remdio.
Pensei nisso inclusive com uma rara sensao de alvio.
Porm quem me chamava era Franquie, porque eu tinha levado
seu carto de embarque entre meus papis. Tive de correr
outra vez para a sada, pedir licena ao oficial que tinha carimbado
meu passaporte, e tornar a passar pelos controles arrastando
Franquie.
        Fomos os ltimos a subir no avio, e fizemos isso com
tanta pressa que no tive conscincia de estar repetindo um
por um os mesmos passos que tinha dado doze anos antes,
quando subi no avio que me levou para o Mxico. Ocupamos
os ltimos lugares, que eram os nicos disponveis. Ento padeci
a emoo mais contraditria da viagem inteira. Senti uma
grande tristeza, senti raiva, senti outra vez a dor intolervel
do desterro, mas senti tambm um alvio imenso: todos os que
participaram da minha aventura estavam sos e salvos. Um
anncio inesperado pelos alto-falantes do avio me ps de
novo na realidade:
        - Por favor, todos os passageiros devem ter suas passagens
na mo. H uma revista.
        Dois funcionrios que podiam ser da empresa ou do governo,
j estavam dentro do avio. Viajei muito, e sei que nos
avies no  raro que peam o carto de embarque na ltima
hora para alguma comprovao a bordo. Mas era a primeira
vez que pediam a passagem. Isto permitia pensar em qualquer
coisa. Angustiado, procurei um refgio nos maravilhosos olhos
verdes da aeromoa que distribua balinhas.
        - Isto  absolutamente inslito, senhorita - disse.
        - Ah, senhor, o que quer que eu faa? - respondeu
ela. - Isso no est em nossas mos.
        Brincando, com sempre fazia nos momentos de perigo,
Franquie perguntou-lhe se ela pernoitaria em Montevidu, e
ela disse no mesmo tom que perguntasse ao seu marido, o copiloto.
Eu, por meu lado, no podia suportar nem um minuto
mais a ignomnia de viver escondido dentro de outro. Senti
vontade de levantar e receber os dois funcionrios aos gritos:
"Vo todos para o caralho, eu sou Miguel Littn, diretor de
cinema, filho de Cristina e Hernn, e nem vocs nem ningum
tem o direito de me impedir de viver em meu pas com meu
prprio nome e minha prpria cara". Mas na hora da verdade
me limitei a mostrar a passagem com a maior solenidade de
que fui capaz, agachado dentro da couraa protetora do meu
outro eu. O homem mal e mal olhou, e devolveu-a sem reparar
em mim.
        Cinco minutos depois, voando sobre a neve rosada dos
Andes ao entardecer, tomei conscincia de que as seis semanas
que deixava atrs no eram as mais hericas da minha vida,
como eu pretendia ao chegar, e sim algo mais importante: as
mais dignas. Olhei o relgio: eram cinco e dez. Naquela hora,
Pinochet teria sado do gabinete com sua corte de ulicos, percorrido
a passos lentos a longa galeria deserta, e descido ao
primeiro andar pela suntuosa escadaria atapetada, arrastando
os trinta e dois mil e duzentos metros de rabo de burro que tnhamos
pregado nele. Pensei em Elena com imensa gratido.
A aeromoa de olhos de esmeralda nos serviu um coquetel de
boas-vindas e nos informou sem que perguntssemos:
-        Acharam que um penetra tinha entrado no aviao.
        Franquie eu levantamos os copos em sua homenagem.
-        Entraram dois - disse eu. - Sade!
FIM DO LIVRO.
